Calibração é a operação que compara as indicações de um instrumento de medição com os valores de um padrão de incerteza conhecida, para determinar o erro do instrumento e a incerteza associada a esse resultado. Ela não corrige o instrumento: mostra quanto ele se desvia, e a decisão de ajustar, aceitar ou retirar de uso vem depois, com base num critério definido por quem usa.
Encontrou um termo técnico? O glossário de calibração de A a Z explica mais de 100 termos, de incerteza e RBC a TUR, EMA e regra de decisão.
Resumo rápido
- A definição oficial está no item 2.39 do VIM, o Vocabulário Internacional de Metrologia, publicado em português pelo Inmetro.
- Calibrar é diferente de ajustar (intervir no instrumento) e de verificar (dizer se atende a um requisito). “Aferição” é um termo antigo, fora do vocabulário oficial.
- O resultado é um certificado de calibração com o erro e a incerteza expandida em cada ponto, emitido de preferência por laboratório acreditado pela Cgcre (Rede Brasileira de Calibração, RBC).
- Quem aprova ou reprova o instrumento é a empresa usuária, comparando erro e incerteza com o erro máximo admissível do seu processo.
- Não há prazo de validade único em lei para a calibração de instrumentos industriais; a periodicidade é definida pela empresa, com base em uso, criticidade e histórico.
O que é calibração?
Pelo VIM 2012, a versão luso-brasileira do vocabulário internacional, calibração é uma operação em duas etapas. Na primeira, estabelece-se a relação entre os valores fornecidos por padrões, com suas incertezas, e as indicações correspondentes do instrumento. Na segunda, essa relação é usada para obter um resultado de medição a partir de uma indicação. O texto em inglês é o JCGM 200:2012, publicado pelo BIPM.
Em linguagem de chão de fábrica: você coloca o instrumento e um padrão melhor medindo a mesma coisa, ao mesmo tempo, em vários pontos da faixa. Anota a diferença entre os dois em cada ponto (o erro) e calcula o quanto confia nessa diferença (a incerteza). Se um manômetro indica 10,2 bar quando o padrão indica 10,0 bar, o erro nesse ponto é +0,2 bar. Se a incerteza da calibração for 0,05 bar, você sabe que o erro verdadeiro está, com cerca de 95 % de probabilidade, entre +0,15 e +0,25 bar.
Três ideias decorrem dessa definição e evitam boa parte das confusões:
- Calibração não inclui ajuste. O VIM diz isso explicitamente. Um instrumento pode ser calibrado, continuar com erro e seguir em uso, desde que o erro seja conhecido e aceitável.
- Calibração sempre tem incerteza. Um “certificado” que só diz “aprovado”, sem erro e sem incerteza, não é um certificado de calibração.
- Calibração depende de um padrão rastreável. Sem padrão com incerteza conhecida e ligado ao Sistema Internacional por uma cadeia documentada, a comparação não tem valor metrológico. O tema está em rastreabilidade metrológica.
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Calibração, ajuste, verificação e aferição: qual a diferença?
As quatro palavras aparecem misturadas em pedidos de compra, procedimentos e conversas com fornecedores. A tabela mostra o que cada uma significa e o que se recebe no fim.
| Termo | O que é | Item do VIM | O que se recebe |
|---|---|---|---|
| Calibração | Determina o erro e a incerteza do instrumento em relação a um padrão | 2.39 | Certificado com erro e incerteza por ponto |
| Ajuste | Intervenção no instrumento para que ele indique valores prescritos, reduzindo o erro | 3.11 | Instrumento alterado; precisa ser calibrado de novo depois |
| Verificação | Evidência objetiva de que o instrumento atende a requisitos especificados, como um erro máximo admissível | 2.44 | Conforme ou não conforme |
| Verificação metrológica legal | Verificação feita pelo Inmetro e pelos Ipem em instrumentos regulamentados (balança comercial, bomba de combustível) | Metrologia legal | Aprovação com marca de verificação |
| Verificação intermediária | Conferência rápida entre duas calibrações, com um padrão ou referência conhecida | Prática da ISO/IEC 17025 | Registro de que o instrumento se manteve dentro do esperado |
| Aferição | Termo antigo, sem definição no VIM atual; costuma significar calibração ou verificação | Não existe | Depende de quem usa: confirme por escrito |
A ordem certa quando o instrumento chega fora do critério é: calibrar como encontrado, decidir, ajustar, calibrar como deixado. O certificado com as duas medições mostra o tamanho do problema e protege a análise de impacto. Um exemplo com balança está em calibração, verificação e ajuste, e os termos oficiais estão reunidos em VIM: termos essenciais.
Outros usos da palavra calibração
Quem busca “calibração” nem sempre está falando de metrologia. Os sentidos mais comuns fora dela, e o que eles têm em comum com a calibração de instrumentos:
| Contexto | O que significa | Tem relação com metrologia? |
|---|---|---|
| Monitor e impressora | Ajustar cor, brilho e contraste com um colorímetro para reproduzir as cores de um padrão (perfil ICC) | Parcial: há comparação com referência, mas o resultado é um ajuste, não um certificado com incerteza |
| Topografia e GNSS | “Calibração de local”: calcular a transformação entre as coordenadas do GPS e um sistema de coordenadas local, a partir de pontos conhecidos | Parcial: é um ajuste de modelo; os receptores e estações também são calibrados no sentido metrológico |
| Pneus | “Calibrar o pneu” é, na verdade, encher até a pressão recomendada; o termo correto é calibragem | O medidor de pressão do posto é um instrumento de medição e pode, ele sim, ser calibrado |
| Sensores de máquinas e equipamentos | Rotina do fabricante para zerar ou ajustar um sensor (por exemplo, “calibrar” uma célula de carga no painel) | Em geral é ajuste. Para valer como calibração, precisa de padrão rastreável e registro de erro e incerteza |
| Modelos estatísticos e analíticos | Ajustar parâmetros de um modelo ou de uma curva analítica a dados de referência | Curva de calibração de laboratório químico, sim; modelos de previsão, em sentido figurado |
O restante deste guia trata da calibração no sentido do VIM: instrumentos de medição usados na indústria, em laboratórios e em serviços.
Por que calibrar instrumentos?
Porque toda decisão tomada com base numa medição herda o erro do instrumento. Um termômetro de pasteurização que indica 2 °C a mais deixa passar produto subprocessado. Um manômetro de caldeira que indica a menos esconde uma sobrepressão. Um torquímetro descalibrado aperta errado os parafusos de uma linha inteira, e ninguém percebe até a primeira falha em campo.
Além do motivo técnico, há os requisitos formais:
- ISO 9001:2015, item 7.1.5.2: quando a rastreabilidade da medição é um requisito, os equipamentos de medição precisam ser calibrados ou verificados em intervalos especificados, contra padrões rastreáveis a padrões internacionais ou nacionais, identificados e protegidos contra ajustes que invalidem o resultado.
- Setores com exigências próprias: automotivo (IATF 16949), alimentos e bebidas (BPF e programas de segurança de alimentos), farmacêutico, saúde e laboratórios trazem exigências mais detalhadas, como análise de impacto quando um instrumento é reprovado.
- Metrologia legal: instrumentos usados em comércio, saúde e segurança são regulamentados pelo Inmetro e passam por verificação periódica.
- Contratos e clientes: muitos clientes industriais exigem certificado de laboratório acreditado para instrumentos que medem características do produto.
Existe também o motivo econômico. Um instrumento que mede com erro leva a refugo de peças boas, aprovação de peças ruins, consumo extra de energia e matéria-prima (um dosador que pesa a mais) e, no pior caso, a recall. A calibração custa pouco perto disso.
Quais instrumentos precisam ser calibrados?
Precisa de calibração todo instrumento cuja medição seja usada para aceitar produto, garantir segurança, cumprir requisito legal ou controlar uma variável crítica de processo. Uma forma prática de organizar é classificar cada instrumento em três grupos:
- Crítico: a medição decide a aceitação do produto ou a segurança. Entra no programa com intervalo definido e critério documentado.
- De controle: a medição orienta o processo, mas há outra barreira depois. Entra no programa, com intervalo que pode ser maior.
- Indicativo: a leitura não leva a decisão nenhuma. Pode ficar fora, desde que identificado como “uso indicativo, não calibrado”.
| Grandeza | Instrumentos típicos | Método mais comum | Guia detalhado |
|---|---|---|---|
| Dimensional | Paquímetro, micrômetro, relógio comparador, trena, calibradores | Comparação com blocos-padrão e padrões dimensionais | Paquímetro e micrômetro |
| Pressão | Manômetro, transmissor, pressostato, vacuômetro | Comparação com manômetro padrão ou balança de pressão | Manômetro |
| Temperatura e umidade | Termômetro digital, termopar, Pt100, termo-higrômetro, infravermelho | Comparação em banho ou forno de bloco seco; corpo negro para infravermelho | Termômetro |
| Massa | Balança, peso padrão | Pesos padrão de classe adequada; comparador de massa | Balança e peso padrão |
| Torque | Torquímetro, parafusadeira com controle de torque | Transdutor ou bancada de torque | Ferramentas e torquímetros |
| Elétrica | Multímetro, alicate amperímetro, megôhmetro, analisador de energia | Calibrador multifunção | Este guia |
| Volume e vazão | Vidraria, dosadoras, medidores de vazão | Gravimetria ou comparação com medidor padrão | Este guia |
| Tempo e frequência | Cronômetro, tacômetro, temporizador | Comparação com referência de tempo e frequência | Este guia |
Na indústria de alimentos, a lista ganha itens próprios, como termômetros de cozimento e câmaras frias e balanças de formulação, tratados em calibração na indústria de alimentos.
Quais são os tipos de calibração?
Os tipos se diferenciam por quem faz, onde faz e que tipo de comprovação o certificado oferece.
| Tipo | Como funciona | Quando usar | Cuidado |
|---|---|---|---|
| Calibração acreditada (RBC) | Feita por laboratório acreditado pela Cgcre para aquele serviço, faixa e incerteza; o certificado traz o símbolo de acreditação | Instrumentos críticos, padrões da empresa, exigência de cliente ou norma | Conferir o escopo na consulta pública do Inmetro |
| Calibração rastreável não acreditada | Laboratório com padrões rastreáveis, mas sem acreditação para o serviço | Grandezas sem oferta acreditada na região, instrumentos de menor criticidade | A empresa precisa avaliar a competência do laboratório |
| Calibração interna | A própria empresa calibra seus instrumentos com padrões calibrados em laboratório acreditado | Volume alto de instrumentos, resposta rápida | Procedimento escrito, cálculo de incerteza, pessoal treinado e registros |
| Calibração de fábrica | Certificado emitido pelo fabricante na entrega do instrumento | Primeira calibração de instrumento novo | Conferir se é calibração (com erro e incerteza) ou só declaração de conformidade, e se o fabricante tem acreditação |
| Calibração in loco (no cliente) | O laboratório leva os padrões até a planta | Instrumentos grandes, fixos ou que não podem parar por muito tempo | A acreditação precisa cobrir serviços “nas instalações do cliente” |
| Calibração com ajuste | Calibração antes e depois de ajustar o instrumento (“como encontrado” e “como deixado”) | Instrumento que chega fora do critério | Exigir as duas medições no certificado |
A diferença entre certificado acreditado e rastreável, e quando cada um basta, está em calibração RBC ou rastreável. O passo a passo para conferir se um laboratório é acreditado está em consulta RBC, e o caminho para um laboratório se acreditar, em acreditação RBC.
Como fazer uma calibração, passo a passo?
- Definir o que se precisa. Faixa de uso, pontos de calibração e erro máximo admissível (EMA) do instrumento, antes de contratar o serviço ou de calibrar internamente.
- Escolher o laboratório ou o procedimento interno. Para calibração externa, confira se o laboratório é acreditado para aquela grandeza, faixa e local de execução.
- Retirar o instrumento de uso e enviar, ou receber o técnico em campo. Registre a data de saída e o substituto, se houver.
- Inspecionar e limpar. Dano visível, sujeira ou peça solta precisam ser registrados antes da medição, porque mudam o resultado.
- Estabilizar. Instrumento e padrão ficam no ambiente do ensaio até equilibrar a temperatura.
- Medir nos pontos definidos. Leituras do padrão e do instrumento, em geral repetidas, às vezes em ciclo crescente e decrescente.
- Registrar as condições ambientais que influenciam o resultado: temperatura, umidade e, em algumas grandezas, pressão atmosférica.
- Calcular o erro e a incerteza pelo método do GUM, considerando padrão, resolução, repetitividade e ambiente.
- Emitir o certificado com os elementos exigidos pela ABNT NBR ISO/IEC 17025, quando o laboratório segue a norma.
- Analisar o certificado. A empresa confere identificação, pontos, padrões e compara os resultados com o EMA.
- Decidir. Aprovar, ajustar e recalibrar, restringir o uso ou descartar. Se reprovado, avaliar o impacto nas medições feitas desde a última calibração aprovada.
- Registrar e programar. Etiqueta ou QR code no instrumento, atualização do cadastro e programação da próxima calibração.
Os passos 1, 10 e 11 são da empresa, não do laboratório. É onde a maioria dos programas falha: o certificado chega, é arquivado e ninguém compara o resultado com o critério.
O que pedir ao laboratório na cotação
- Identificação do instrumento: tipo, faixa, resolução, número de série e TAG.
- Pontos de calibração, incluindo o ponto de uso do processo.
- Calibração acreditada ou não, e local de execução (laboratório ou planta).
- Se deve ajustar quando estiver fora, e com qual critério, com medição antes e depois.
- Regra de decisão, se você quiser declaração de conformidade no certificado.
- Prazo de devolução e forma de envio do certificado (PDF, portal, sistema).
O que o certificado de calibração precisa ter?
Um certificado emitido conforme a ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 traz identificação única do documento e do laboratório, dados do cliente e do item calibrado, data da calibração, método, condições ambientais relevantes, resultados com a incerteza de medição, evidência de rastreabilidade metrológica e identificação de quem autorizou a emissão. Se o laboratório declarar conformidade com uma especificação, precisa informar a regra de decisão usada.
Na conferência, cinco perguntas resolvem a maioria dos problemas:
- O número de série e a TAG batem com o instrumento físico?
- Os pontos calibrados cobrem a faixa em que o instrumento é usado?
- Se o certificado tem o símbolo de acreditação, o número do laboratório (no formato “CAL” seguido do número) aparece, e o serviço está no escopo da consulta RBC?
- A incerteza é pequena em relação ao EMA do seu processo?
- Os padrões usados estavam com calibração válida na data?
O que o certificado não traz, na maioria das vezes, é o veredito para o seu uso. Essa parte é sua. O roteiro campo a campo está em como ler um certificado de calibração.
O que é incerteza de medição na calibração?
É a faixa de dúvida que sobra sobre o resultado, mesmo depois de corrigir o que se sabe. Ela é calculada juntando as fontes de dúvida (padrão, resolução, repetitividade, ambiente), cada uma convertida em desvio-padrão, pela raiz da soma dos quadrados. O resultado é a incerteza combinada, que, multiplicada pelo fator de abrangência k, vira a incerteza expandida U do certificado. O método é o do GUM, que o Inmetro publica em português como GUM 2008.
Um orçamento simples, com números ilustrativos, para um termômetro digital calibrado a 50 °C:
| Fonte | Avaliação | Incerteza-padrão |
|---|---|---|
| Termômetro padrão | Certificado: U = 0,10 °C, k = 2 | 0,050 °C |
| Resolução do instrumento (0,1 °C) | ±0,05 °C, retangular, dividido por √3 | 0,029 °C |
| Estabilidade do banho | ±0,03 °C, retangular, dividido por √3 | 0,017 °C |
| Repetitividade (10 leituras) | s = 0,06 °C, dividido por √10 | 0,019 °C |
| Combinada | √(0,050² + 0,029² + 0,017² + 0,019²) | 0,063 °C |
Com muitos graus de liberdade, k ≈ 2 e U ≈ 0,13 °C. O padrão responde por cerca de 63 % da variância; fazer mais leituras mudaria pouco o resultado.
A sequência de leitura sugerida para dominar o tema: incerteza tipo A e tipo B, distribuições retangular e triangular, incerteza combinada, incerteza expandida e fator k e o exemplo completo de como calcular incerteza de medição. A diferença entre erro e incerteza, que confunde muita gente, está em erro e incerteza de medição.
Como saber se o instrumento está aprovado na calibração?
Compare o erro e a incerteza do certificado com o erro máximo admissível que a sua empresa definiu para aquele uso. A regra mais usada na indústria aprova o ponto quando |erro| + U ≤ EMA, o que equivale a uma banda de guarda igual a U.
Exemplo ilustrativo: um transmissor de pressão de 0 a 6 bar, usado no controle de um processo, tem EMA de ±0,030 bar (0,5 % da faixa). No ponto de 3 bar, o certificado informa indicação média de 3,012 bar, erro de +0,012 bar e U = 0,006 bar com k = 2.
- |erro| + U = 0,012 + 0,006 = 0,018 bar, abaixo de 0,030 bar. Aprovado.
- O ponto consome 60 % da tolerância (0,018 de 0,030). Sobra folga para a deriva até a próxima calibração.
- Se o erro fosse +0,026 bar, ele estaria dentro do EMA, mas |erro| + U = 0,032 bar passaria do limite. Pela regra conservadora, o instrumento seria reprovado ou iria para ajuste.
O EMA vem do processo: tolerância da característica medida, requisito de norma ou de cliente, ou a classe do instrumento quando nada mais exigente se aplica. Banda de guarda, aceitação simples e a escolha da regra estão em critério de aceitação na calibração.
O que é rastreabilidade metrológica?
É a propriedade de um resultado que pode ser ligado a uma referência, normalmente o Sistema Internacional de Unidades, por uma cadeia documentada e ininterrupta de calibrações, cada uma com sua incerteza (VIM 2.41). Na prática, o seu instrumento foi calibrado com um padrão, que foi calibrado num laboratório acreditado, que tem padrões calibrados no Inmetro ou em outro instituto nacional de metrologia. Se um elo está vencido ou sem documento, a rastreabilidade se rompe. Para laboratórios acreditados, as rotas aceitas estão na NIT-Dicla-030, alinhada à política ILAC P10. O tema está detalhado em rastreabilidade metrológica, e os cuidados com os padrões da empresa, em gestão de padrões de calibração.
Com que frequência calibrar?
Não existe um prazo único definido em lei para a calibração de instrumentos industriais, e o Inmetro informa, na página de dúvidas sobre acreditação, que o certificado de calibração não tem prazo de validade fixado pela Cgcre. O intervalo é definido pela empresa, considerando:
- recomendação do fabricante;
- criticidade da medição;
- frequência e severidade de uso (vibração, pulsação, temperatura, quedas);
- histórico de deriva nas calibrações anteriores;
- exigências de clientes, normas setoriais ou regulamentos.
Um ponto de partida comum é 12 meses, revisado a cada certificado: se o instrumento sempre chega com folga, o intervalo pode crescer; se chega no limite ou fora, precisa diminuir. Entre duas calibrações, uma verificação intermediária com um padrão simples pega desvios cedo. As exceções são os instrumentos regulamentados, que seguem os prazos da metrologia legal. Métodos para revisar o intervalo de forma justificada estão em periodicidade de calibração, e o que fazer quando o prazo passou está em certificado de calibração vencido.
Quais normas tratam de calibração?
| Norma ou documento | Para quem | O que pede |
|---|---|---|
| ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 | Laboratórios de ensaio e calibração | Competência, imparcialidade, rastreabilidade (6.5), incerteza (7.6), conteúdo do certificado (7.8) e regra de decisão (7.1.3) |
| ISO 9001:2015, item 7.1.5 | Qualquer organização certificada | Recursos de monitoramento e medição adequados; calibração ou verificação contra padrões rastreáveis; avaliação de resultados anteriores quando o instrumento está fora |
| ABNT NBR ISO 10012 | Empresas que querem um sistema de gestão de medição estruturado | Requisitos para processos de medição e comprovação metrológica do equipamento |
| IATF 16949 | Setor automotivo | Registros de calibração, análise de impacto e requisitos para laboratórios internos e externos |
| VIM e GUM (JCGM 200 e 100) | Todos | Vocabulário e método de cálculo de incerteza |
| ILAC P10 e NIT-Dicla-030 | Laboratórios acreditados | Rotas aceitas de rastreabilidade metrológica |
| Portaria Inmetro nº 157/2022 | Balanças regulamentadas | Regulamento técnico metrológico de instrumentos de pesagem não automáticos |
| Portaria Inmetro nº 457/2021 | Oficinas permissionárias | Autorização para reparo e manutenção de instrumentos regulamentados |
Um resumo da norma dos laboratórios, com mapa de cláusulas e exemplo de regra de decisão, está em ISO/IEC 17025 na prática. A relação com o sistema da qualidade da manutenção está em ISO 9001 e a manutenção.
Quanto custa uma calibração e quem faz?
O preço de uma calibração varia muito, e comparar só o valor por instrumento costuma levar à escolha errada. Os fatores que mais pesam:
| Fator | Por que muda o preço |
|---|---|
| Grandeza e faixa | Padrões de alta pressão, alta temperatura ou grande capacidade de massa são caros de manter |
| Número de pontos e de ciclos | Mais pontos e ciclos crescente e decrescente levam mais tempo de bancada |
| Incerteza exigida | Quanto menor a incerteza, melhor o padrão e mais controlado o ambiente |
| Acreditação | O laboratório acreditado arca com avaliações, ensaios de proficiência e sistema de gestão |
| Local | In loco evita frete e parada longa, mas inclui deslocamento da equipe |
| Ajuste e reparo | Costumam ser cobrados à parte |
| Prazo | Urgência pode ter custo adicional |
O custo real inclui o que não aparece na nota: tempo do instrumento fora de uso, substituto, frete, horas da equipe para enviar, receber e analisar certificados e o custo de um instrumento reprovado descoberto tarde. Para comparar fornecedores de forma justa, envie a mesma especificação de pontos, incerteza e local para todos.
Quem faz: laboratórios acreditados pela Cgcre (a lista pública fica na consulta RBC do Inmetro), laboratórios não acreditados com padrões rastreáveis, fabricantes de instrumentos que mantêm laboratório próprio e a própria empresa, quando tem laboratório interno. O Inmetro calibra padrões de laboratórios, não costuma atender instrumentos industriais de rotina.
Calibração interna ou externa?
Calibrar internamente compensa quando o volume de instrumentos é grande, a resposta precisa ser rápida e a empresa consegue manter padrões, ambiente e pessoal treinado. Calibrar externamente compensa quando o volume é baixo, as grandezas são variadas ou o cliente exige certificado acreditado. Muitas empresas fazem as duas coisas: os padrões vão para um laboratório acreditado, e os instrumentos de processo são calibrados em casa contra esses padrões, com procedimento escrito, cálculo de incerteza e registros. Um termômetro padrão com certificado RBC, um banho e um procedimento bem escrito, por exemplo, permitem calibrar dezenas de termômetros de processo no mês sem tirá-los da planta por dias.
E a metrologia legal?
Instrumentos usados em relações de consumo, saúde, segurança e fiscalização, como balanças comerciais, bombas de combustível, taxímetros e esfigmomanômetros, são regulamentados pelo Inmetro. Eles passam por verificação periódica feita pelos órgãos da Rede Brasileira de Metrologia Legal e Qualidade (RBMLQ-I), em geral o Ipem do estado, e só podem ser reparados por empresas autorizadas, as permissionárias. Calibração e verificação legal não se substituem: uma balança de expedição pode precisar das duas. O funcionamento está em permissionária do Inmetro e no guia do Portal de Serviços do Inmetro (PSIE).
Como montar um programa de gestão de calibração?
- Inventário. Todo instrumento com TAG, local, faixa, resolução e responsável.
- Classificação. Crítico, de controle ou indicativo.
- Critério por instrumento. EMA e pontos de calibração definidos a partir do uso, não copiados do catálogo.
- Periodicidade. Intervalo inicial e regra para revisar.
- Fornecedores. Lista de laboratórios com escopo conferido.
- Recebimento. Análise de cada certificado contra o critério, com aprovação registrada.
- Identificação. Etiqueta ou QR code no instrumento, com situação e próxima data.
- Tratamento de reprovação. Retirada de uso, análise de impacto e registro de não conformidade.
- Indicadores. Percentual de instrumentos em dia, percentual de reprovação na chegada e atraso médio.
Uma conta simples ajuda a dimensionar o trabalho. Uma planta com 400 instrumentos no programa e intervalo médio de 12 meses recebe, em média, 400 / 12 ≈ 33 certificados por mês para analisar. Se cada análise leva 10 minutos, são cerca de 5,5 horas por mês só de conferência, sem contar envio, recebimento e tratamento de reprovações. É o tipo de rotina que a planilha aguenta mal.
A versão detalhada, com indicadores, está em gestão de calibração. Quem ainda usa planilha encontra as colunas e fórmulas em planilha de controle de calibração, e a comparação com um sistema em software de calibração ou planilha. Os princípios gerais da área estão em metrologia industrial.
Erros comuns em calibração
- Contratar calibração sem dizer os pontos. O laboratório calibra onde é mais fácil, e o ponto de uso fica de fora.
- Arquivar o certificado sem analisar. Instrumento reprovado volta para a linha com etiqueta nova.
- Usar o EMA do fabricante para todo uso. O critério certo depende da tolerância do processo, não do catálogo.
- Confundir acreditação do laboratório com escopo do serviço. Laboratório acreditado em temperatura não emite certificado acreditado de pressão.
- Aceitar “certificado de calibração” sem incerteza. Sem incerteza, não é calibração no sentido do VIM.
- Esquecer os padrões internos. Padrão vencido contamina todas as calibrações feitas com ele.
- Não avaliar o impacto da reprovação. A ISO 9001 (item 7.1.5.2) pede que a empresa determine se resultados de medição anteriores foram afetados quando um instrumento é encontrado fora do especificado.
- Chamar ajuste de calibração. Zerar o instrumento no painel não gera erro, incerteza nem rastreabilidade.
Glossário curto de calibração
| Termo | Em uma frase |
|---|---|
| Certificado de calibração | Documento com os resultados da calibração, erro e incerteza por ponto |
| Erro de medição | Valor medido menos o valor de referência |
| Valor verdadeiro convencional (VVC) | Valor atribuído ao padrão, usado como referência |
| Incerteza de medição | Parâmetro que expressa a dúvida sobre o resultado |
| Incerteza expandida | Incerteza combinada multiplicada pelo fator k, declarada no certificado |
| Fator de abrangência (k) | Multiplicador que leva a cerca de 95 % de probabilidade |
| Graus de liberdade efetivos | Número que define o k pela t de Student |
| Critério de aceitação | Regra que decide se o instrumento está aprovado |
| Padrão de calibração | Instrumento ou medida de referência com incerteza conhecida |
| Rastreabilidade metrológica | Ligação documentada do resultado ao SI |
| RBC | Rede de laboratórios de calibração acreditados pela Cgcre |
| Periodicidade de calibração | Intervalo entre duas calibrações do mesmo instrumento |
| Verificação intermediária | Conferência entre calibrações para manter a confiança |
| Histerese | Diferença entre a indicação subindo e descendo no mesmo ponto |
| ISO/IEC 17025 | Norma de competência de laboratórios de ensaio e calibração |
| Permissionária | Oficina autorizada a reparar instrumentos regulamentados |
O verbete geral é calibração, e o de metrologia industrial situa o tema.
Como o Sismetro ajuda
O Sismetro tem um software de calibração na mesma base de ativos da manutenção. Para a indústria que contrata laboratórios, ele recebe os certificados de terceiros com digitação dos resultados por canal, anexo do PDF e aprovação com login e senha, e controla os vencimentos por cores, abrindo a SS de recalibração com a antecedência que você definir. Para quem calibra em casa ou presta serviço, ele emite o certificado a partir das leituras ponto a ponto, com cálculo de erro, incerteza combinada, graus de liberdade efetivos, fator k e incerteza expandida, memória de cálculo guardada, incerteza herdada do padrão, histerese e página de validação de autenticidade com histórico de versões. Laboratório e indústria começam no plano grátis, que cobre os primeiros certificados do ano sem cartão de crédito; acima dele há planos pagos e, para operações com várias unidades, o Enterprise. A escolha de um sistema está em como escolher software de calibração, as opções sem custo em software de calibração gratuito e uma lista comparativa em alternativas de software de calibração.
Controle suas calibrações grátis no Sismetro.Cadastro de instrumentos, vencimentos com SS antes de vencer, certificado no padrão com cálculo de incerteza e QR code de validação. Laboratórios e indústrias começam no plano grátis, sem cartão de crédito.
Mapa do tema: todos os guias de calibração
Conceitos: metrologia industrial, VIM, calibração, verificação e ajuste, erro e incerteza, rastreabilidade metrológica, rastreabilidade na manutenção.
Incerteza: tipo A e tipo B, distribuições retangular e triangular, incerteza combinada, expandida e fator k, exemplo completo.
Laboratórios, normas e Inmetro: ISO/IEC 17025, consulta RBC, acreditação RBC, RBC ou rastreável, permissionária, PSIE.
Instrumentos: paquímetro e micrômetro, ferramentas e torquímetros, manômetro, termômetro, balança, peso padrão, indústria de alimentos.
Gestão: gestão de calibração, critério de aceitação, periodicidade, leitura do certificado, certificado vencido, padrões, planilha de controle.
Software: como escolher, gratuito, software ou planilha, alternativas, Sismetro x Metroex, Sismetro x ISOPLAN, Sismetro x MK, Sismetro x Calibre.Software.
Por onde começar amanhã
Liste os dez instrumentos mais críticos da planta e, para cada um, escreva três dados: o EMA que o processo exige, os pontos em que ele é usado e a data do último certificado. Se algum desses campos ficar em branco, é ali que o programa de calibração começa. Depois, confira na consulta RBC se os laboratórios que calibraram esses dez instrumentos são acreditados para o serviço que fizeram.
Quem acredita os laboratórios, quantos existem por grandeza e como ler o escopo está no guia da RBC, a Rede Brasileira de Calibração.
Perguntas frequentes
O que é calibração?
É a comparação das indicações de um instrumento com os valores de um padrão de incerteza conhecida, para determinar o erro e a incerteza da medição. A definição oficial está no item 2.39 do VIM, e a calibração não inclui o ajuste do instrumento.
Qual a diferença entre calibração e aferição?
Aferição é um termo antigo que não existe no vocabulário de metrologia atual. Em geral, quem usa a palavra quer dizer calibração, com erro e incerteza no certificado, ou verificação, com resultado conforme ou não conforme. Em contratos, use os termos do VIM.
Qual a diferença entre calibração e ajuste?
A calibração mede o erro do instrumento em relação a um padrão, sem alterar o instrumento. O ajuste é a intervenção que reduz esse erro. Depois de um ajuste, o instrumento precisa ser calibrado de novo para comprovar o novo erro.
Quais instrumentos precisam ser calibrados?
Os instrumentos cujas medições são usadas para aceitar produto, garantir segurança, cumprir requisito legal ou controlar variáveis críticas de processo. Instrumentos apenas indicativos podem ficar fora, desde que identificados como não calibrados.
Qual a validade de uma calibração?
Não há prazo único fixado em lei para instrumentos industriais, e a Cgcre não define validade para certificados de calibração. A empresa define o intervalo com base em uso, criticidade e histórico. Instrumentos regulamentados seguem os prazos da metrologia legal.
A calibração precisa ser feita em laboratório RBC?
Não é obrigatório em todos os casos, mas é o caminho mais simples para comprovar rastreabilidade e competência. A ISO 9001 pede padrões rastreáveis; clientes e normas setoriais muitas vezes exigem laboratório acreditado. O escopo do laboratório pode ser conferido na consulta pública do Inmetro.
O que um certificado de calibração deve conter?
Identificação do laboratório, do cliente e do instrumento, data, método, condições ambientais, resultados com erro e incerteza expandida por ponto, fator k, evidência de rastreabilidade e assinatura de quem autorizou. Esses elementos estão no item 7.8 da ABNT NBR ISO/IEC 17025.
Como saber se o instrumento foi aprovado na calibração?
Compare o erro e a incerteza de cada ponto com o erro máximo admissível definido pela sua empresa. Pela regra mais usada, o ponto é aprovado quando o erro em módulo somado à incerteza expandida não passa do EMA.