Calibração é a operação que estabelece a relação entre os valores indicados por um instrumento e os valores de um padrão, com as incertezas associadas; ela informa o erro, mas não mexe no instrumento. Verificação é a confirmação, com evidência objetiva, de que o instrumento atende a um requisito especificado, como um erro máximo admissível. Ajuste é a intervenção física ou de configuração para que o instrumento passe a indicar valores corretos. As três definições estão no VIM 2012, a edição luso-brasileira do Vocabulário Internacional de Metrologia publicada pelo Inmetro, nos itens 2.39, 2.44 e 3.11.
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Resumo rápido
- Calibração (VIM 2.39): mede o erro e a incerteza contra um padrão. Não altera o instrumento.
- Verificação (VIM 2.44): diz se o instrumento atende a um requisito. Responde sim ou não.
- Ajuste (VIM 3.11): altera o instrumento. Depois dele, é preciso calibrar de novo.
- Verificação metrológica legal é a feita pelo Ipem em instrumentos regulamentados; verificação intermediária é a checagem entre calibrações (ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017, item 6.4.10).
- Qualificação (IQ, OQ, PQ) é termo de validação de equipamentos nas boas práticas de fabricação. Aferição é termo antigo, fora do VIM.
Na prática, a confusão entre esses termos custa caro de duas formas. A primeira é o instrumento que “foi calibrado” e voltou com erro fora do aceitável, porque ninguém pediu ajuste nem leu o certificado. A segunda é o instrumento ajustado sem registro do estado anterior, o que apaga a informação de que ele estava errado durante meses de uso.
O que é calibração
A calibração compara a indicação do instrumento com um padrão de calibração em pontos definidos da faixa e registra, para cada ponto, o valor de referência, a indicação, o erro de medição e a incerteza. O resultado vai para um certificado. O VIM descreve a calibração em duas etapas: primeiro, estabelecer a relação entre padrão e indicação, com as incertezas; depois, usar essa relação para obter um resultado de medição a partir de uma indicação. Duas características definem a calibração:
- Ela não conclui nada por si. Diz quanto o instrumento erra e com que incerteza. Se isso é aceitável, depende de um critério que a empresa define.
- Ela cria rastreabilidade. Como o padrão também foi calibrado, e assim por diante até os padrões nacionais, o resultado fica ligado ao Sistema Internacional por uma cadeia documentada (VIM, item 2.41). É isso que dá valor de evidência ao certificado.
A nota 2 do item 2.39 pede para não confundir calibração com ajuste, “frequentemente denominado de maneira imprópria de auto-calibração”, nem com verificação da calibração. Quando uma balança faz “calibração automática” com massa interna, o que ela faz é um ajuste. O texto original em inglês é o JCGM 200:2012, do BIPM.
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O que é verificação
Pelo item 2.44 do VIM, verificação é o fornecimento de evidência objetiva de que um item satisfaz requisitos especificados. Em metrologia, o requisito costuma ser um limite de erro: “no ponto de 20 kg, a balança deve indicar entre 19,995 e 20,005 kg”. A verificação responde sim ou não. As notas do item lembram que, quando aplicável, a incerteza deve ser levada em conta e que verificação não deve ser confundida com calibração.
Ela aparece de três formas na indústria:
- Verificação de rotina ou de uso: conferir a balança com uma massa padrão antes do turno, o termômetro no ponto de gelo, o pHmetro com solução tampão. Rápida, num ponto ou dois, feita pelo próprio operador.
- Verificação intermediária: checagem planejada entre duas calibrações, para manter a confiança no instrumento. A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 trata dela no item 6.4.10, que pede um procedimento quando essas checagens são necessárias, e o guia ILAC-G24/OIML D 10:2022 cita a frequência e os resultados delas como fator para definir intervalos.
- Verificação metrológica legal: obrigatória para instrumentos regulamentados, detalhada mais abaixo.
A verificação depende de um padrão confiável, mas não substitui a calibração. Ela olha poucos pontos, normalmente não quantifica incerteza e não cria rastreabilidade por si.
O que é ajuste
Pelo item 3.11 do VIM, ajuste é o conjunto de operações feitas num sistema de medição para que ele forneça indicações prescritas para determinados valores. O VIM cita ajuste de zero, de defasagem (“offset”) e de amplitude (ganho). Exemplos de fábrica: regular zero e span de um transmissor de pressão, mudar o fator de calibração de uma célula de carga, reposicionar o ponteiro de um manômetro, gravar novos coeficientes num controlador de temperatura.
As notas do item são diretas: o ajuste não deve ser confundido com calibração, que é pré-requisito para ele, e depois de um ajuste o sistema geralmente deve ser recalibrado. Ou seja, a calibração anterior deixa de descrever o instrumento.
O que é verificação metrológica legal (Ipem)?
É a verificação de instrumentos regulamentados pelo Inmetro, como balanças usadas no comércio, bombas de combustível e esfigmomanômetros, feita pelos órgãos da RBMLQ-I, em geral o Ipem de cada estado, conforme o regulamento técnico do instrumento. A nota 4 do item 2.44 do VIM registra que, em metrologia legal, a verificação compreende o exame e a marcação ou a emissão de um certificado de verificação. A página de metrologia legal do Inmetro descreve o controle sobre produção, comercialização e uso desses instrumentos.
Duas consequências práticas. Primeiro, o selo do Ipem atesta conformidade com o regulamento, sem erro e incerteza por ponto; uma balança aprovada pode não atender à tolerância do seu processo. Segundo, o reparo de instrumento regulamentado só pode ser feito por empresa autorizada, a permissionária do Inmetro. A comparação lado a lado para balanças, com o escopo da Portaria 157/2022, está em calibração de balança.
Tabela comparativa
| Termo | Onde está definido | Pergunta que responde | Altera o instrumento? | O que você recebe |
|---|---|---|---|---|
| Calibração | VIM 2012, item 2.39 | Quanto o instrumento erra, e com que incerteza? | Não | Certificado com erro e incerteza por ponto |
| Verificação | VIM 2012, item 2.44 | Ele atende ao limite especificado? | Não | Conforme ou não conforme |
| Ajuste | VIM 2012, item 3.11 | Como fazer o instrumento indicar certo? | Sim | Instrumento em nova condição, que precisa ser recalibrado |
| Verificação intermediária | ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017, item 6.4.10 | Ele continua confiável entre duas calibrações? | Não | Registro da checagem, com padrão ou referência conhecida |
| Verificação metrológica legal | Regulamentos técnicos do Inmetro; VIM 2.44, nota 4 | Ele atende ao regulamento para uso legal? | Não (o reparo é outra etapa, feito por permissionária) | Aprovação com marca de verificação, ou reprovação |
| Validação | VIM 2012, item 2.45 | Os requisitos são adequados ao uso pretendido? | Não | Evidência de que o método ou procedimento serve para aquele uso |
| Qualificação (IQ, OQ, PQ) | Termo de validação de equipamentos em boas práticas de fabricação; não está no VIM | O equipamento foi instalado, opera e desempenha como o processo exige? | Não necessariamente | Protocolos e relatórios de qualificação |
| Aferição | Termo antigo; não aparece no VIM 2012 | Depende de quem usa | Depende | Confirme por escrito o que está sendo contratado |
A ordem certa: calibrar, decidir, ajustar, calibrar de novo
Quando o instrumento vai para o laboratório, o fluxo que preserva a informação é este:
- Calibração “como encontrado”. Mede o instrumento no estado em que chegou, sem tocar em nada.
- Decisão. Compara o resultado com o critério de aceitação combinado.
- Ajuste, se necessário. Só quando o erro estiver fora ou perto do limite, conforme o acordo com o cliente.
- Calibração “como deixado”. Mede de novo, depois do ajuste.
A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 pede que o certificado traga os resultados antes e depois de ajuste ou reparo, quando disponíveis (item 7.8.4.1). Na prática, muito pedido de compra diz só “calibrar”, e o laboratório ajusta e entrega apenas o resultado final. O certificado fica bonito e a informação mais importante desaparece.
Exemplo: a balança que chegou fora
Situação de exemplo. Uma balança de 30 kg usada para pesar aditivos numa fábrica de ração tem erro máximo admissível de ±10 g no ponto de 20 kg, definido pela qualidade. O laboratório recebe com a instrução de calibrar como encontrado, ajustar se precisar e calibrar como deixado.
| Etapa | Erro em 20 kg | Incerteza (U) | |E| + U | Situação |
|---|---|---|---|---|
| Como encontrado | +12 g | 2 g | 14 g | Fora do EMA de 10 g |
| Ajuste do span | Técnico corrige o fator da célula de carga | – | – | – |
| Como deixado | +1 g | 2 g | 3 g | Dentro do EMA |
Se o certificado trouxesse só a última linha, a balança voltaria para a linha com etiqueta nova e ninguém perguntaria nada. Com a primeira, a pergunta obrigatória aparece: desde a última calibração aprovada, quanto aditivo foi dosado com 12 g a mais em cada 20 kg? É aí que entram a análise de impacto e o registro de não conformidade, descritos em gestão de calibração.
O que a verificação semanal teria mostrado
Continue o exemplo. Suponha que, depois do ajuste, a empresa passe a conferir essa balança toda segunda-feira com uma massa de 20 kg calibrada, com critério interno de ±5 g (metade do EMA, para avisar antes do limite). Leituras ilustrativas das primeiras semanas:
| Semana | Indicação com a massa de 20 kg | Desvio | Resultado |
|---|---|---|---|
| 1 | 20,001 kg | +1 g | Conforme |
| 2 | 20,002 kg | +2 g | Conforme |
| 3 | 20,004 kg | +4 g | Conforme, com tendência |
| 4 | 20,006 kg | +6 g | Não conforme: balança bloqueada e enviada para calibração |
O desvio apareceu em quatro semanas, antes de chegar ao EMA de 10 g, e não no fim do intervalo de calibração. A verificação não disse quanto a balança errava na faixa toda nem com que incerteza; disse que era hora de calibrar. Essa é a divisão de trabalho certa entre as duas atividades.
E a tal “aferição”?
Aferição é um termo antigo que não está no VIM 2012. No chão de fábrica, ele pode significar calibração, verificação ou “conferir e acertar”, tudo junto. O risco é contratual: um pedido de “aferição” pode ser entendido pelo fornecedor como verificação simples, sem certificado com incerteza. Em procedimentos, pedidos de compra e contratos, escreva o que você quer: calibração com certificado, incluindo resultados antes e depois de ajuste, nos pontos tais.
Onde entra a qualificação de equipamento
Qualificação é um termo de validação de equipamentos, comum em farmacêutica, saúde e alimentos que seguem boas práticas de fabricação. Ela costuma ser dividida em três etapas: qualificação de instalação (IQ), que confirma que o equipamento foi instalado conforme o projeto e o fabricante; qualificação de operação (OQ), que mostra que ele opera dentro dos limites especificados; e qualificação de desempenho (PQ), que mostra que ele entrega o resultado do processo nas condições reais. Não é termo do VIM, e os requisitos exatos dependem do regulamento do setor.
A relação com a calibração é de dependência: os sensores do equipamento e os instrumentos usados nos testes precisam estar calibrados, senão a qualificação prova pouco. Numa autoclave, por exemplo, o mapeamento térmico da PQ só vale se os sensores de temperatura usados tiverem certificado válido. Um caso completo está em qualificação e validação de autoclave.
Erros comuns
- Pedir só “calibração” e receber o instrumento ajustado, sem o resultado como encontrado.
- Ajustar internamente sem recalibrar. O técnico mexe no zero de um transmissor durante a manutenção e a etiqueta continua dizendo “calibrado até março”.
- Tratar a verificação diária como calibração e estender o intervalo de calibração sem critério.
- Usar padrão de verificação sem certificado. A massa da qualidade e o termômetro de referência também precisam de calibração rastreável.
- Confundir verificação legal com calibração. Balança aprovada pelo Ipem atende ao regulamento; pode não atender à tolerância do seu processo.
- Fazer qualificação com instrumento vencido. O relatório de IQ, OQ ou PQ herda o problema.
Como o Sismetro ajuda
No Sismetro, calibração e verificação ficam ligadas ao mesmo cadastro do instrumento, na base de ativos da manutenção, com QR Code, OS e histórico. Cada canal de medição tem tolerância e validade em meses. O certificado de um laboratório externo é recebido com os resultados digitados por canal, o PDF anexado e a aprovação registrada com login e senha do responsável; o emitido internamente traz leituras ponto a ponto, cálculo de erro, uc, veff, k e U, memória de cálculo, histerese e correção do padrão, e pode ter a autenticidade conferida numa página de validação com histórico de versões. Os vencimentos aparecem por cores, e uma SS é aberta automaticamente N dias antes do prazo. O software de calibração começa no plano grátis, com planos pagos e Enterprise para operações maiores.
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Próximo passo
Abra o último pedido de compra de serviço de calibração e veja o que está escrito. Se diz apenas “calibrar” ou “aferir”, reescreva o modelo com quatro linhas: pontos de calibração na faixa de uso, critério de aceitação, autorização de ajuste e exigência de resultado antes e depois. Depois, separe os instrumentos regulamentados, que precisam também da verificação legal, e revise a periodicidade de calibração dos que têm verificação de rotina registrada. O panorama completo está no guia de calibração, e quem precisa conferir se o laboratório é acreditado encontra o caminho em o que é a RBC.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre calibração e verificação?
Calibração estabelece a relação entre a indicação do instrumento e o valor do padrão, com a incerteza associada, e informa o erro (VIM, item 2.39). Verificação é o fornecimento de evidência objetiva de que o instrumento atende a um requisito especificado, como um erro máximo admissível (VIM, item 2.44). A calibração mede; a verificação compara com um limite e conclui se atende ou não.
Calibração e ajuste são a mesma coisa?
Não. Ajuste é a intervenção no instrumento para que ele passe a indicar valores prescritos, como regular zero e span (VIM, item 3.11). A calibração não altera o instrumento; o VIM diz que ela é pré-requisito para o ajuste e que, depois de ajustado, o instrumento geralmente deve ser recalibrado.
O que é aferição?
É um termo antigo, ainda usado no chão de fábrica, que não aparece no VIM 2012. Dependendo de quem fala, significa calibração, verificação ou as duas coisas juntas. Em procedimentos e contratos, prefira os termos do VIM para evitar mal-entendido.
A verificação substitui a calibração?
Não. A verificação, inclusive a verificação intermediária feita entre calibrações, só confirma que o instrumento continua dentro de um limite num ponto ou em poucos pontos. Ela não estabelece a rastreabilidade nem quantifica o erro e a incerteza na faixa toda, que é o papel da calibração.
O que é verificação metrológica legal?
É a verificação obrigatória de instrumentos regulamentados, como balanças comerciais e bombas de combustível, feita pelos órgãos da rede do Inmetro (RBMLQ-I, em geral o Ipem do estado) conforme o regulamento técnico de cada tipo de instrumento. O VIM registra que, em metrologia legal, ela compreende o exame e a marcação ou a emissão de certificado de verificação. Ela não substitui a calibração quando o processo da empresa exige mais do que o regulamento.
O que é qualificação de equipamento (IQ, OQ, PQ)?
É o conjunto de testes documentados que mostra que um equipamento foi instalado corretamente (IQ), opera dentro dos limites especificados (OQ) e entrega o desempenho exigido pelo processo (PQ). O termo vem da validação de equipamentos nas boas práticas de fabricação, não do VIM, e depende de instrumentos calibrados para ter valor.