Indicadores de manutenção são medidas que mostram com que frequência os equipamentos falham (MTBF), quanto tempo a equipe leva para devolvê-los à operação (MTTR) e qual parcela do tempo eles ficam aptos a produzir (disponibilidade). Junto com backlog, percentual de preventiva e custo, eles permitem discutir manutenção com números, e não com impressão.
As definições de falha, confiabilidade e mantenabilidade usadas no Brasil vêm da NBR 5462. Abaixo estão as fórmulas, sempre com um exemplo numérico, e os cuidados para que o número que aparece no painel signifique alguma coisa.
Como calcular o MTBF?
MTBF (Mean Time Between Failures) é o tempo médio de operação entre falhas de um equipamento reparável.
MTBF = tempo total em operação ÷ número de falhas
Exemplo: o acionamento de um terno de moenda tinha 720 horas disponíveis no mês (30 dias × 24 horas). Ele parou 3 vezes por falha, somando 12 horas de reparo. O tempo em operação foi 720 − 12 = 708 horas.
MTBF = 708 ÷ 3 = 236 horas.
Três cuidados que mudam o resultado:
- Conte só falhas. Parada para preventiva, troca de produto, falta de matéria-prima ou de demanda não é falha e não entra no denominador.
- Use o tempo em que o equipamento deveria operar. Se a linha só roda em dois turnos, a base é o tempo desses turnos, não 24 horas por dia.
- Olhe períodos maiores. Com três falhas no mês, uma falha a mais ou a menos muda o MTBF em dezenas de horas. Acumule três, seis ou doze meses para enxergar tendência.
Para itens que não são reparados, e sim substituídos (uma lâmpada, um fusível), o termo correto é MTTF, tempo médio até a falha. O cálculo é parecido.
Como calcular o MTTR?
MTTR (Mean Time To Repair) é o tempo médio para reparar o equipamento e devolvê-lo à operação.
MTTR = tempo total de reparo ÷ número de reparos
No mesmo exemplo: 12 horas ÷ 3 reparos = 4 horas.
O debate costuma ser sobre o que entra nessas 4 horas. Vale decompor. Suponha que uma das paradas teve 30 minutos até o técnico chegar, 1,5 hora esperando o rolamento sair do almoxarifado e 2 horas de reparo propriamente dito. Se você olhar só o tempo de mão na máquina, o MTTR parece bom; se olhar a parada inteira, aparece a espera de peça, que é um problema de estoque e não de habilidade técnica. Por isso a OS deve registrar separadamente o início e o fim da parada e o início e o fim do reparo. Com os dois tempos, o MTTR mostra onde está o atraso.
Como calcular a disponibilidade?
A disponibilidade é a fração do tempo em que o equipamento está apto a operar. A forma mais usada, a partir dos dois indicadores anteriores, é:
Disponibilidade = MTBF ÷ (MTBF + MTTR)
No exemplo: 236 ÷ (236 + 4) = 236 ÷ 240 = 98,3%.
O mesmo resultado sai da conta direta: 708 horas operando ÷ 720 horas previstas = 98,3%. Essa versão considera apenas as paradas por falha.
Se a empresa decidir incluir também as paradas planejadas de manutenção, o número muda. Com mais 8 horas de preventiva no mês, a disponibilidade fica (720 − 12 − 8) ÷ 720 = 700 ÷ 720 = 97,2%. Nenhuma das duas está errada; o erro é comparar plantas ou meses que usam critérios diferentes. Escreva o critério na definição do indicador.
Disponibilidade também não é OEE. O OEE multiplica disponibilidade, desempenho e qualidade, e por isso enxerga perdas de velocidade e refugo que não dependem só da manutenção.
Para dar uma ideia de escala: num caso real de uma indústria de alimentos que usa a Sismetro, a disponibilidade passou de 76% para 93%, com redução de 25% no custo de manutenção. Esse tipo de ganho começa, quase sempre, por medir direito.
O que é confiabilidade e como interpretar R(t) = e^(-t/MTBF)?
Confiabilidade é a probabilidade de o equipamento operar sem falhar durante um intervalo de tempo, nas condições definidas. Quando se assume que a taxa de falhas é constante (falhas aleatórias, sem desgaste dominante), ela é calculada assim:
R(t) = e^(-t/MTBF)
Em que t é o intervalo de interesse, em horas, e e é a base do logaritmo natural (cerca de 2,718).
Com o MTBF de 236 horas do exemplo:
- Probabilidade de passar 24 horas sem falha: e^(-24/236) = e^(-0,102) ≈ 90%.
- Probabilidade de passar uma semana (168 horas) sem falha: e^(-168/236) = e^(-0,712) ≈ 49%.
- Probabilidade de chegar às 236 horas sem falha: e^(-1) ≈ 37%.
Esse último número costuma surpreender. MTBF não é prazo de validade: com taxa de falhas constante, só cerca de 37% dos equipamentos chegam ao MTBF sem falhar. Na prática, isso ajuda a responder perguntas como “qual a chance de esta bomba aguentar até a parada de domingo?”.
A fórmula tem limite. Equipamentos com desgaste claro, como rolamentos no fim da vida ou correias, não têm taxa de falhas constante, e o modelo exponencial subestima o risco perto do fim da vida útil. Para esses casos, engenheiros de confiabilidade usam distribuições como a de Weibull. Para gestão do dia a dia, a versão exponencial dá uma boa ordem de grandeza.
Backlog: quanto trabalho está parado na fila?
Backlog (semanas) = horas estimadas das OS pendentes ÷ horas disponíveis da equipe por semana
Exemplo: 960 horas de OS abertas, equipe de 10 técnicos com 40 horas produtivas cada (400 horas por semana). Backlog = 960 ÷ 400 = 2,4 semanas.
Referências de mercado costumam tratar algo entre 2 e 4 semanas como faixa saudável, mas a tendência importa mais. Backlog subindo indica falta de capacidade ou excesso de corretiva; backlog perto de zero normalmente indica demanda que não está sendo registrada. Mais detalhes em backlog de manutenção.
Percentual de preventiva e corretiva
% preventiva = horas em OS preventivas e preditivas ÷ total de horas apontadas
Exemplo: no mês foram apontadas 1.800 horas. Dessas, 1.080 foram em preventiva e inspeção e 720 em corretiva. Preventiva = 1.080 ÷ 1.800 = 60%; corretiva = 40%.
Separe ainda a corretiva em programada (falha detectada em inspeção, reparo planejado) e emergencial (parou, tem que ir agora). Corretiva programada é sinal de que a inspeção funcionou. Muitas empresas maduras trabalham com metas de 70% a 80% ou mais de trabalho planejado, mas a meta só faz sentido se o apontamento de horas for confiável.
Custo de manutenção sobre faturamento e sobre RAV
São dois indicadores diferentes, e é comum ver um chamado pelo nome do outro.
Custo de manutenção sobre faturamento = custo anual de manutenção ÷ faturamento bruto. É o indicador usado pela ABRAMAN no Documento Nacional, e os percentuais variam bastante por setor e por edição da pesquisa. O cuidado aqui é que o faturamento oscila com o preço do produto. Em agroindústria isso pesa: num ano de açúcar, etanol ou carne em alta, o indicador cai sem que a manutenção tenha mudado nada.
Custo de manutenção sobre RAV = custo anual de manutenção ÷ valor de reposição dos ativos. RAV (Replacement Asset Value) é quanto custaria repor hoje os equipamentos mantidos, e não o valor contábil depreciado. Por não depender de preço de venda, é melhor para comparar ao longo do tempo. Referências internacionais costumam citar faixas entre 2% e 5% ao ano, com muita variação por setor e idade da planta.
Exemplo: custo anual de manutenção de R$ 6 milhões, RAV de R$ 200 milhões e faturamento de R$ 300 milhões. Custo sobre RAV = 3%; custo sobre faturamento = 2%. Para os dois, defina o que entra no custo de manutenção (mão de obra própria, terceiros, materiais e peças) e o que fica fora (investimentos de expansão), e mantenha o critério de um ano para o outro.
Como garantir dados confiáveis: a OS bem apontada
Todo indicador acima sai da ordem de serviço. Se ela for mal preenchida, o painel mente. Um exemplo: se uma das três falhas da moenda não for registrada, o MTBF passa de 236 para algo perto de 354 horas, uma melhora de 50% que não existiu.
- Aponte na hora, pelo celular, e não no fim do turno de memória.
- Registre início e fim da parada e do reparo separadamente.
- Diferencie falha de parada planejada no tipo da OS.
- Use códigos de sintoma, causa e modo de falha em vez de texto livre. A ISO 14224 é uma boa referência para montar essa lista.
- Vincule a OS ao ativo certo. Leitura de QR Code no equipamento evita OS lançada no motor vizinho.
- Revise antes de encerrar. Alguém do PCM confere se causa, horas e peças fazem sentido.
Num CMMS, os indicadores são calculados a partir dessas OS, e o ganho real é poder clicar no MTBF e ver de quais ordens ele veio. Quem cuida dessa conferência no dia a dia é o PCM.
Quer tirar isso da planilha?O Sismetro junta ordens de serviço, preventivas, estoque e indicadores num só lugar, com app para os técnicos e integração com o ERP Senior.
Resumo das fórmulas
| Indicador | Fórmula | Exemplo do texto |
|---|---|---|
| MTBF | Tempo em operação ÷ número de falhas | 708 ÷ 3 = 236 h |
| MTTR | Tempo de reparo ÷ número de reparos | 12 ÷ 3 = 4 h |
| Disponibilidade | MTBF ÷ (MTBF + MTTR) | 236 ÷ 240 = 98,3% |
| Confiabilidade | R(t) = e^(-t/MTBF) | R(24 h) ≈ 90% |
| Backlog | Horas pendentes ÷ horas disponíveis por semana | 960 ÷ 400 = 2,4 semanas |
| % preventiva | Horas preventivas ÷ horas totais apontadas | 1.080 ÷ 1.800 = 60% |
| Custo sobre RAV | Custo anual ÷ valor de reposição dos ativos | 6 ÷ 200 = 3% |
Se você está começando, escolha os dez equipamentos mais críticos e calcule MTBF, MTTR e disponibilidade só deles, mês a mês, por seis meses. É o suficiente para enxergar onde o plano preventivo precisa mudar.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre MTBF e MTTR?
O MTBF é o tempo médio de operação entre uma falha e outra e mostra com que frequência o equipamento quebra. O MTTR é o tempo médio para reparar e devolver o equipamento à operação e mostra a rapidez da resposta da manutenção. O ideal é MTBF subindo e MTTR caindo.
O que é um bom MTBF?
Não existe valor universal, porque o MTBF depende do tipo de equipamento, da carga e do regime de operação. O mais útil é comparar o mesmo equipamento ao longo do tempo, ou equipamentos iguais em condições parecidas, e acompanhar a tendência.
Paradas preventivas entram no cálculo do MTBF?
Não. O MTBF conta apenas falhas, ou seja, paradas não planejadas. As paradas preventivas e programadas podem entrar no cálculo de disponibilidade operacional, desde que a empresa deixe claro qual critério está usando.
Disponibilidade e OEE são a mesma coisa?
Não. A disponibilidade mede o tempo em que o equipamento está apto a operar. O OEE multiplica disponibilidade, desempenho e qualidade, então inclui perdas de velocidade e de refugo que não são responsabilidade só da manutenção.
Com que frequência devo calcular os indicadores de manutenção?
Backlog e aderência à programação são acompanhados semanalmente. MTBF, MTTR e disponibilidade costumam ser fechados por mês, mas olhados em janelas maiores, como três ou doze meses, porque poucos eventos num mês distorcem a média.