Regra de decisão

Regra de decisão define como a incerteza entra na aprovação de um instrumento. Veja aceitação simples, banda de guarda e um exemplo numérico.

Regra de decisão é a regra que descreve como a incerteza de medição é considerada ao declarar se um resultado atende a um requisito especificado, como a tolerância de um instrumento. A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 traz essa definição no item 3.7, e o documento ILAC-G8:09/2019 descreve as regras mais usadas em calibração. Na prática, é o que transforma “erro de +0,42 °C com U = 0,15 °C” em aprovado ou reprovado.

Por que a incerteza muda a decisão

O certificado não informa o erro verdadeiro do instrumento. Ele traz uma estimativa, o erro de medição, e um intervalo em torno dela, a incerteza expandida U. Quando o erro fica longe do limite, a incerteza não atrapalha ninguém. Perto do limite, o erro verdadeiro pode estar do outro lado, e alguém precisa dizer quanto desse risco aceita. Esse alguém é quem usa o instrumento, e a resposta tem que estar escrita antes de ver o número.

Quais são as regras descritas no ILAC-G8?

Regra Como aprova Risco para um resultado no limite
Aceitação simples |E| ≤ EMA, sem descontar a incerteza Até 50 % de falsa aceitação para um erro exatamente igual ao EMA
Binária com banda de guarda (w = U) |E| ≤ EMA − U, ou seja, |E| + U ≤ EMA Cerca de 2,3 % no limite de aceitação (distribuição normal, k = 2)
Não binária Aprovado, aprovado condicional, reprovado condicional ou reprovado A zona de dúvida fica declarada no próprio resultado

A aceitação simples só é razoável quando U é pequena perto do EMA. Por isso ela costuma vir acompanhada de uma exigência mínima de TUR, como U de no máximo um quarto do EMA.

Exemplo: transmissor de temperatura de um pasteurizador

Num laticínio, o transmissor que controla a temperatura de pasteurização tem EMA de ±0,5 °C. O laboratório informa U = 0,15 °C (k = 2) em todos os pontos. Três cenários de erro encontrado, com valores de exemplo:

Erro Aceitação simples Banda de guarda (limite ±0,35 °C) Não binária
+0,20 °C Aprovado Aprovado Aprovado
+0,42 °C Aprovado Reprovado Aprovado condicional
+0,58 °C Reprovado Reprovado Reprovado condicional

No caso de +0,42 °C, a incerteza-padrão é 0,075 °C (U dividido por 2) e o resultado fica a 0,08 °C do limite, pouco mais de uma incerteza-padrão. Supondo distribuição normal, a probabilidade de o erro verdadeiro passar de +0,5 °C é de cerca de 14 %. É esse número que a regra de decisão aceita ou recusa. Para o transmissor que libera leite pasteurizado, 14 % de chance de estar fora é muito. Para um termômetro de sala de embalagem, talvez seja aceitável.

No caso de +0,58 °C, o erro passou do EMA, mas |E| − U = 0,43 °C ainda fica abaixo dele: o valor verdadeiro pode estar dentro. A regra não binária deixa isso explícito em vez de esconder a dúvida num “reprovado” seco.

Como escolher e registrar a regra

  1. Classifique cada medição pelo impacto de uma falsa aceitação: segurança, produto, requisito legal, exigência de cliente.
  2. Para as críticas, use banda de guarda. Para uso geral, a aceitação simples pode bastar se a U do laboratório for pequena perto do EMA.
  3. Escreva a regra no procedimento interno e no pedido de calibração.
  4. Se quiser declaração de conformidade no certificado, combine a regra com o laboratório. A 17025 exige que ela seja definida e acordada com o cliente (7.1.3) e informada no certificado (7.8.6).

Para o passo a passo de como montar o critério completo, com EMA por ponto, veja critério de aceitação na calibração.

Erro comum

Deixar a regra implícita. O laboratório aplica uma, a qualidade aplica outra, e o mesmo certificado vira aprovado no arquivo e reprovado na auditoria. Outro erro frequente é escolher a regra depois de ver o resultado: aceitação simples quando o número incomoda, banda de guarda quando sobra folga. E vale separar os conceitos: o critério de aceitação define o EMA; a regra de decisão define como a incerteza entra na comparação com ele.

No Sismetro, a tolerância de cada canal pode ser avaliada pelo erro, pela incerteza ou pela soma dos dois, o que na prática é a escolha da regra de decisão, e o certificado emitido traz a declaração de conformidade com a regra aplicada. Veja o módulo de calibração e metrologia.

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