Critério de aceitação na calibração é a regra que decide se um instrumento continua apto para o uso, comparando o erro e a incerteza do certificado com o erro máximo admissível (EMA) definido para aquela aplicação. A forma mais usada na indústria aprova quando |E| + U ≤ EMA, o que é exatamente uma banda de guarda igual à incerteza expandida (w = U). A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 chama essa escolha de regra de decisão e exige que ela seja acordada com o cliente e informada no certificado sempre que houver declaração de conformidade.
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Resumo rápido
- O critério tem três entradas: erro (E) e incerteza expandida (U), que vêm do certificado, e o EMA, que é decisão da empresa.
- A ILAC G8:09/2019 organiza as regras pela banda de guarda w: aceitação simples (w = 0), 0,83U, U, 1,5U e 3U, cada uma com um risco diferente de aceitação falsa.
- Aprovar quando |E| + U ≤ EMA é o mesmo que aprovar quando |E| ≤ EMA − U: banda w = U, com risco de aceitação falsa abaixo de 2,5 % no limite.
- Na aceitação simples, uma leitura exatamente no limite tem até 50 % de chance de estar fora.
- A ISO/IEC 17025:2017 trata do tema nos itens 3.7, 7.1.3 e 7.8.6; o JCGM 106, traduzido pelo Inmetro em 2022, dá a base estatística.
- A regra é escolhida antes de ver o número.
O que entra na conta?
- E, o erro de medição: indicação do instrumento menos o valor de referência, ponto a ponto.
- U, a incerteza expandida: a meia largura do intervalo de dúvida sobre esse erro, sempre com o fator k e a probabilidade de abrangência. Como o k é escolhido está em incerteza expandida e fator k.
- EMA, o erro máximo admissível: o maior erro que o uso tolera, para mais ou para menos. O VIM, na edição do Inmetro, o define como o valor extremo do erro de medição admitido por especificações ou regulamentos.
E e U são do ponto calibrado. Se o certificado tem oito pontos, o critério é aplicado oito vezes, e o instrumento só está aprovado se todos os pontos que interessam ao uso passarem. A diferença conceitual entre os dois números está em erro e incerteza de medição.
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De onde vem o erro máximo admissível?
O EMA é decisão da empresa, tomada antes de o instrumento ir para o laboratório. As fontes mais comuns:
- Tolerância do processo. Se a pressão de um vaso precisa ficar entre 8 e 9 bar, o manômetro não pode errar 0,5 bar. O EMA do instrumento costuma ser uma fração pequena da tolerância do processo.
- Regulamento técnico. Instrumentos regulamentados pelo Inmetro têm EMA definido no regulamento de cada tipo, e aí não há escolha.
- Classe de exatidão ou especificação do fabricante. Um manômetro de classe 1,0 tem erro admissível de ±1 % do fundo de escala. Serve como ponto de partida, mas pode ser folgado demais para um processo crítico.
Quais são as regras de decisão mais usadas?
A referência internacional é o guia ILAC G8:09/2019, sobre regras de decisão e declarações de conformidade. Ele define a banda de guarda como o intervalo entre o limite de tolerância (TL) e o limite de aceitação (AL), com w = |TL − AL|; o resultado é aceito quando fica aquém de AL = TL − w. A tabela 1 do guia (seção 5.2) lista as regras e o risco específico de aceitação falsa de cada uma. Abaixo, aplicada a um manômetro com EMA de ±0,16 bar e U = 0,04 bar (k = 2):
| Regra (nome usado na G8) | Banda de guarda w | Limite de aceitação para |E| | Risco específico de aceitação falsa (G8, tabela 1) |
|---|---|---|---|
| 6 sigma | 3U | 0,04 bar | menor que 1 ppm |
| 3 sigma | 1,5U | 0,10 bar | menor que 0,16 % |
| Regra da G8:2009 | U | 0,12 bar | menor que 2,5 % |
| ISO 14253-1:2017 | 0,83U | 0,127 bar | menor que 5 % |
| Aceitação simples | 0 | 0,16 bar | menor que 50 % |
| Não crítica | −U | reprova só acima de 0,20 bar | rejeição falsa menor que 2,5 % |
| Definida pelo cliente | r·U | 0,16 − r × 0,04 bar | depende do r |
Os percentuais supõem especificação de um lado só e distribuição normal. A conferência é curta: com k = 2, a incerteza-padrão é U/2, e a banda r·U vale 2r incertezas-padrão. Com o resultado exatamente em AL, a chance de o valor verdadeiro passar do limite é a cauda da normal além de 2r desvios: 2,3 % para r = 1, 0,13 % para r = 1,5 e 4,8 % para r = 0,83. O 0,83 da ISO 14253-1 não é mágico: 0,83U com k = 2 são 1,66 incertezas-padrão, praticamente o quantil unilateral de 95 % da normal.
A G8 (seção 4.1) lembra que a aceitação simples também é chamada de “risco compartilhado”: com o resultado no limite, a probabilidade de o item estar fora pode chegar a 50 %. O JCGM 106 traduzido pelo Inmetro descreve a mesma regra no item 8.2 e põe uma condição: a incerteza precisa ter sido avaliada e julgada adequada ao uso, por exemplo com um valor máximo de U acordado.
Nenhuma regra é “a certa”. Toda banda que reduz o risco de quem usa o instrumento aumenta o de quem o mantém: mais instrumentos bons reprovados, mais ajustes. A G8 (seção 5.4) cita o JCGM 106 justamente para lembrar esse efeito.
Por que |E| + U ≤ EMA é uma banda de guarda w = U?
Porque é a mesma desigualdade escrita de outro jeito. Passe o U para o outro lado: |E| + U ≤ EMA vira |E| ≤ EMA − U, e o lado direito é o limite de aceitação de uma regra com w = U. Muita gente aplica a regra conservadora há anos sem saber que usa a banda de guarda da G8.
Com os números do manômetro: EMA de 0,16 bar e U de 0,04 bar dão limite de 0,12 bar. Um erro de +0,13 bar reprova pelas duas formas: 0,13 + 0,04 = 0,17, maior que 0,16; e 0,13 é maior que 0,12. E o risco? Se o erro medido fosse exatamente 0,12 bar, o valor verdadeiro estaria a 0,04 bar do limite, ou duas incertezas-padrão de 0,02 bar. A chance de passar de 0,16 bar é a cauda unilateral além de 2 desvios: 2,3 %, dentro dos “menos de 2,5 %” da G8.
Uma ressalva: a equivalência vale para o U do ponto, com o k do certificado. Se o laboratório declarou k = 2,37 por ter poucos graus de liberdade, a banda continua sendo U, mas o percentual de risco muda um pouco, porque a tabela supõe normal com k = 2.
O que a ISO/IEC 17025 e o JCGM 106 exigem?
A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 não escolhe a regra por você, mas amarra o processo. Os textos dos itens estão transcritos na seção 2 da ILAC G8:
| Item | O que pede | Na prática |
|---|---|---|
| 3.7 | Define regra de decisão: como a incerteza de medição é considerada ao declarar conformidade com um requisito especificado | “Aprovado” sem regra declarada é opinião |
| 7.1.3 | Se o cliente pede declaração de conformidade, especificação e regra ficam claramente definidas; se a regra não for inerente à especificação, é comunicada e acordada com o cliente | A regra entra no pedido, antes do serviço |
| 7.8.6.1 | O laboratório documenta a regra considerando o nível de risco (aceitação falsa, rejeição falsa, suposições estatísticas) e a aplica | A escolha de w tem justificativa escrita |
| 7.8.6.2 | O relatório identifica a quais resultados a declaração se aplica, quais especificações foram atendidas e a regra usada, salvo se inerente à especificação | O certificado diz contra qual EMA e com qual regra |
A base estatística vem do JCGM 106:2012. O Inmetro publicou em 2022 a primeira edição brasileira, “Avaliação de dados de medição: o papel da incerteza de medição na avaliação da conformidade”, tradução autorizada pelo BIPM. Na tradução, guard band virou “faixa de segurança”, e as regras com banda aparecem como “aceitação conservadora” e “rejeição conservadora” (item 8.3). O documento também separa risco específico, de um item medido, de risco global, médio para uma população. A estrutura geral da norma está no resumo prático da ISO/IEC 17025.
Exemplo: manômetro de 0 a 16 bar
Situação de exemplo. Manômetros de 0 a 16 bar em linhas de vapor de baixa pressão têm EMA de ±0,16 bar (classe 1,0), definido pela engenharia. Quatro certificados, no ponto de 10 bar:
| Caso | Erro (E) | U | |E| + U | Banda de guarda (w = U) | Aceitação simples |
|---|---|---|---|---|---|
| A | +0,05 bar | 0,04 bar | 0,09 bar | Aprovado | Aprovado |
| B | +0,13 bar | 0,04 bar | 0,17 bar | Reprovado (zona de guarda) | Aprovado |
| C | −0,15 bar | 0,03 bar | 0,18 bar | Reprovado (zona de guarda) | Aprovado |
| D | +0,18 bar | 0,04 bar | 0,22 bar | Reprovado | Reprovado |
No caso A sobra folga: o instrumento usa 56 % da tolerância (0,09 de 0,16). No caso D, o erro sozinho já passa do EMA, e qualquer regra reprova. Os casos B e C geram discussão. No C, com U = 0,03 bar, o limite de aceitação é 0,13 bar, e o erro de 0,15 bar fica fora dele, embora dentro do EMA.
Exemplo: a mesma leitura julgada por cinco regras
Situação de exemplo, com números ilustrativos. Um relógio comparador digital usado na inspeção de empenamento de eixos tem EMA de ±8,0 µm. No ponto de 5 mm, o certificado traz E = +5,8 µm e U = 2,0 µm (k = 2). Como E é positivo, só o limite superior importa:
| Regra | w | Limite de aceitação (µm) | E = +5,8 µm |
|---|---|---|---|
| Aceitação simples | 0 | 8,00 | Aprovado |
| ISO 14253-1:2017 | 0,83U = 1,66 µm | 6,34 | Aprovado |
| w = U (|E| + U ≤ EMA) | 2,0 µm | 6,00 | Aprovado (5,8 + 2,0 = 7,8) |
| 3 sigma | 1,5U = 3,0 µm | 5,00 | Reprovado |
| 6 sigma | 3U = 6,0 µm | 2,00 | Reprovado |
O mesmo instrumento, com o mesmo certificado, está aprovado ou reprovado dependendo da regra. E o risco real? Com incerteza-padrão de 1,0 µm, o valor verdadeiro está a 2,2 desvios do limite de 8,0 µm: cerca de 1,4 % de chance de o erro verdadeiro passar do EMA. Para um relógio que separa eixos bons de eixos para retífica, a maioria das empresas aceita esse risco. Para um instrumento que libera peça de segurança, talvez não.
Passa condicional e falha condicional: o que significam?
A G8 (seção 4.2.3) também descreve uma declaração não binária, com quatro resultados: pass, conditional pass, conditional fail e fail, que em português costumam aparecer como passa, passa condicional, falha condicional e falha. No relógio comparador, com w = U = 2,0 µm:
| Erro medido | Faixa (µm) | Declaração | Chance de o erro verdadeiro passar de 8,0 µm |
|---|---|---|---|
| +4,0 µm | abaixo de 6,0 | Passa | menos de 0,01 % |
| +6,8 µm | de 6,0 a 8,0 | Passa condicional | cerca de 12 % |
| +8,9 µm | de 8,0 a 10,0 | Falha condicional | cerca de 82 % |
| +10,5 µm | acima de 10,0 | Falha | mais de 99 % |
A declaração condicional é honesta: diz que a medição não basta para decidir. Mas devolve a decisão para quem recebe o certificado. Se o seu procedimento não diz o que fazer com um “passa condicional”, o técnico libera o instrumento, porque a palavra “passa” está lá.
O que fazer na zona de guarda?
Instrumento na zona de guarda não é necessariamente ruim; é instrumento cuja conformidade não pode ser afirmada com a incerteza disponível. As saídas, previstas no procedimento antes:
- Ajustar e recalibrar. A saída mais comum. O certificado traz o resultado antes e depois do ajuste.
- Recalibrar com incerteza menor. No caso B, um laboratório com U = 0,01 bar resolveria (0,13 + 0,01 = 0,14).
- Rebaixar o uso. O manômetro passa para uso indicativo, com EMA maior.
- Aceitar com risco documentado. Só quando a regra acordada prevê isso, com decisão e responsável registrados.
O que não pode é decidir a regra depois de ver o número. Escolher a aceitação simples só para o caso B, porque ele “quase passou”, é exatamente o que uma auditoria procura.
A relação entre incerteza e EMA
A banda de guarda só funciona se a incerteza for pequena perto do EMA. Uma prática comum é buscar U de no máximo um terço a um quarto do EMA. O JCGM 106 (item 7.6) chama isso de índice de capacidade de medição, Cm, que para tolerância de ±EMA e k = 2 é simplesmente EMA/U. No manômetro, U = 0,04 bar dá Cm = 4. Com U = 0,08 bar, Cm cai para 2, metade da tolerância fica presa na banda, e quase todo instrumento cai na zona de guarda.
Por isso o critério também serve para escolher fornecedor: informe o EMA na cotação e confira se a incerteza do laboratório é compatível. A menor incerteza de cada laboratório acreditado aparece no escopo como CMC; entender o que é a RBC e como ler esse escopo poupa recalibração. A conta de U, passo a passo, está em como calcular incerteza de medição.
Consumo da tolerância: o número que alimenta a periodicidade
Dividir |E| + U pelo EMA dá a fração da tolerância que o instrumento está usando: 56 % no caso A, 106 % no caso B, 98 % no relógio comparador. Acompanhar esse número calibração após calibração mostra a tendência antes da reprovação. O método está em periodicidade de calibração.
Quando o laboratório escreve “aprovado”
Antes de aceitar um “aprovado” ou “conforme”, descubra contra qual especificação e com qual regra. Pelo item 7.8.6.2 da 17025, o certificado precisa identificar as duas coisas. Se não identificar, o “aprovado” não serve como evidência para o seu critério. A saída mais limpa é pedir E e U por ponto e aplicar o seu critério internamente. O roteiro de como ler um certificado de calibração mostra onde procurar.
Quando o instrumento é reprovado
A reprovação dispara três perguntas: o que foi medido com o instrumento desde a última calibração aprovada, se isso afetou produto ou processo, e o que fazer com o instrumento. Se houver risco, o caminho é registrar uma não conformidade, avaliar o impacto e revisar o intervalo do instrumento e de similares. O verbete critério de aceitação do glossário resume as regras, e o guia de calibração mostra onde o critério entra no programa inteiro.
Como o Sismetro ajuda
No módulo de calibração e metrologia do Sismetro, o critério fica no cadastro, e não na memória de quem analisa: cada canal do layout do instrumento tem tolerância própria, por erro (E), por incerteza (U), pela soma U+E (a regra |E| + U ≤ EMA) ou livre, com validade em meses. Certificados de laboratórios externos recebem os resultados digitados por canal, o PDF anexado e aprovação com login e senha; nos emitidos pelo próprio Sismetro, a tabela de resultados avalia cada ponto contra a tolerância, com memória de cálculo guardada. Os vencimentos aparecem por cores, e a SS de recalibração abre sozinha com a antecedência configurada, na mesma base de ativos da manutenção. Há plano grátis, planos pagos e Enterprise.
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Checklist para escrever o seu critério
- EMA por instrumento ou família, por ponto ou faixa, na unidade do certificado.
- Regra de decisão escrita no procedimento, com o w escolhido e o motivo.
- Relação mínima entre EMA e U exigida do laboratório (por exemplo, U ≤ EMA/3).
- O que fazer com “passa condicional”, “falha condicional” e reprovação, e quem decide.
- Regra informada ao laboratório no pedido, quando ele for declarar conformidade.
Para começar amanhã: pegue os cinco instrumentos mais críticos da planta, anote EMA, E e U do último certificado e calcule |E| + U dividido pelo EMA em cada ponto. Os que passarem de 80 % são candidatos a revisão de regra, de laboratório ou de intervalo. Com essa tabela na mão, a conversa sobre qual banda de guarda adotar deixa de ser teórica.
Perguntas frequentes
Qual o critério de aceitação de uma calibração?
É a regra que compara o erro e a incerteza do certificado com o erro máximo admissível (EMA) definido pela empresa. A forma mais usada aprova o instrumento quando |E| + U ≤ EMA em todos os pontos de interesse, o que equivale a uma banda de guarda igual a U.
O que é regra de decisão na ISO/IEC 17025?
É a regra que descreve como a incerteza de medição é considerada ao declarar conformidade (item 3.7 da ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017). Ela é acordada com o cliente quando ele pede declaração de conformidade (7.1.3) e informada no relatório (7.8.6).
O que é banda de guarda na calibração?
É a distância entre o limite de tolerância e o limite de aceitação, w = |TL − AL|, na definição da ILAC G8:09/2019. Com EMA de 0,16 bar e w = U = 0,04 bar, o erro aceito vai até 0,12 bar.
Qual o risco da aceitação simples?
Com o resultado exatamente no limite de tolerância, a chance de o valor verdadeiro estar fora chega a 50 %, segundo a ILAC G8:09/2019, supondo distribuição normal. Ela só faz sentido com incerteza pequena perto do EMA e risco aceito por escrito.
O que significa passa condicional no certificado?
Significa que o resultado ficou dentro da tolerância, mas dentro da banda de guarda, numa declaração não binária da ILAC G8:09/2019. O instrumento pode estar conforme, mas a medição não permite afirmar isso com o risco escolhido. A falha condicional é o espelho, logo acima do limite.
Qual deve ser a relação entre a incerteza e o EMA?
Uma prática comum é buscar U de no máximo um terço a um quarto do EMA. O JCGM 106 chama essa relação de índice de capacidade de medição, que para tolerância de ±EMA e k = 2 vale EMA/U. Com U igual à metade do EMA, metade da tolerância fica presa na banda de guarda.