Não conformidade é o não atendimento de um requisito: uma especificação de produto, um procedimento interno, uma exigência legal ou um requisito de cliente. Gerir não conformidades é registrar cada ocorrência, conter o efeito, descobrir a causa, eliminar essa causa com uma ação corretiva e verificar, depois de um tempo, se a ação funcionou de fato.
A maior parte das empresas faz bem a primeira metade e mal a segunda. O lote fora de especificação é segregado, o equipamento é ajustado, todo mundo volta a trabalhar. O registro da NC fica com a causa preenchida como “falha operacional” e a ação como “orientar o colaborador”. Seis meses depois, o mesmo problema aparece no mesmo lugar, com outro operador.
Correção, ação corretiva e ação preventiva: qual a diferença?
Essa confusão está por trás de metade das NCs mal tratadas.
- Correção (ou contenção): ação para eliminar a não conformidade detectada. Segregar o lote, retrabalhar, trocar a peça, reajustar o equipamento. Resolve o efeito, não a causa.
- Ação corretiva: ação para eliminar a causa da não conformidade e evitar que ela se repita. Muda o processo, o projeto, o plano de manutenção, o procedimento.
- Ação preventiva: ação sobre uma causa de não conformidade potencial, que ainda não aconteceu. Na edição 2015 da ISO 9001, ela deixou de ser um requisito separado e passou a ser tratada dentro da abordagem de riscos e oportunidades, mas o conceito continua útil no dia a dia.
Uma NC sem ação corretiva é só um incidente registrado. E uma NC em que a correção é registrada como ação corretiva (“ajustado o equipamento”) vai voltar.
O fluxo de tratamento de uma não conformidade
- Registro. O que aconteceu, onde (área, equipamento, lote), quando, quem detectou e qual requisito foi violado. Com evidência: foto, medição, amostra, número do lote.
- Avaliação de impacto e contenção. Há produto afetado já expedido? Há risco à segurança? Quais lotes, turnos ou equipamentos precisam ser verificados? A contenção acontece em horas, não em dias.
- Análise de causa. Por que aconteceu? Ferramentas simples resolvem a maioria dos casos: cinco porquês para cadeias lineares, diagrama de Ishikawa quando há várias causas possíveis. Para falhas de equipamento recorrentes, uma análise de causa raiz mais estruturada.
- Plano de ação corretiva. O que será feito sobre a causa, quem faz, até quando. Um plano 5W2H organiza bem essa etapa.
- Execução com evidência. Cada ação concluída com registro: procedimento revisado (com versão), treinamento com lista de presença, alteração no plano de manutenção, peça substituída com OS.
- Verificação de eficácia. Depois de um prazo definido, alguém verifica se o problema voltou. Só então a NC é encerrada.
- Análise de tendência. Periodicamente, olhe o conjunto: quais áreas, equipamentos e tipos de NC se repetem.
Exemplo: peso de sacaria fora de tolerância numa fábrica de ração
Um caso hipotético, mas bem típico. A qualidade de uma fábrica de ração de uma cooperativa detecta, na verificação de rotina, sacos de 25 kg com até 400 g abaixo do peso nominal, acima da tolerância interna.
Registro: ensacadeira 2, turno da tarde, lotes do dia, verificação por amostragem com balança de referência. Requisito violado: especificação de peso do produto.
Contenção: lotes do turno retidos e repesados; sacos fora da tolerância reprocessados; ensacadeira 2 parada até verificação.
Análise de causa (cinco porquês):
- Por que os sacos saíram leves? A balança da ensacadeira indicava o peso correto, mas o peso real era menor.
- Por que a indicação estava errada? A célula de carga apresentava desvio.
- Por que havia desvio? Um suporte da célula estava com fixação solta, provocando leitura instável.
- Por que a fixação soltou sem ninguém perceber? A preventiva da ensacadeira não incluía verificação da fixação da célula de carga, só limpeza e lubrificação.
- Por que a verificação da balança não pegou antes? A verificação com peso padrão estava prevista mensalmente, mas não era registrada e havia sido pulada nos dois últimos meses.
Ações corretivas: incluir no plano de preventiva a verificação de fixação e integridade das células de carga; tornar a verificação com peso padrão um checklist com registro obrigatório, com periodicidade semanal enquanto durar a observação; estender a análise às outras ensacadeiras.
Eficácia: após 60 dias, verificar se houve novo desvio de peso nas ensacadeiras e se 100% das verificações semanais foram registradas.
Repare que a NC nasceu na qualidade e a causa estava na manutenção e na metrologia. Esse é o padrão mais comum na indústria, e é por isso que NC, ordem de serviço e calibração deveriam conversar no mesmo histórico. O roteiro de análise de falhas de equipamentos ajuda quando a causa está na máquina.
O que o registro de uma NC precisa ter
| Campo | Por que importa |
|---|---|
| Origem (auditoria, inspeção, reclamação de cliente, processo) | Permite ver de onde vêm os problemas |
| Requisito violado | Sem requisito claro, não é NC, é opinião |
| Ativo, área ou lote afetado | Liga a NC ao histórico do equipamento e à rastreabilidade do produto |
| Evidência inicial | Foto, medição, amostra; prova o que foi encontrado |
| Contenção e responsável | Mostra que o efeito foi controlado |
| Causa identificada e método usado | Mostra que houve análise, não palpite |
| Ações, responsáveis e prazos | Base para cobrança |
| Verificação de eficácia (data, critério, resultado) | É o que permite encerrar a NC com segurança |
Numa plataforma de gestão de manutenção e serviços com evidência como o Sismetro, a não conformidade é registrada com foto e vinculada ao ativo, e as ações podem virar ordens de serviço ou tarefas acompanhadas no mesmo ambiente. Isso evita o cenário clássico em que a qualidade tem uma planilha de NCs e a manutenção nunca fica sabendo qual delas dependia de uma OS.
Quer tirar isso da planilha?O Sismetro junta ordens de serviço, preventivas, estoque e indicadores num só lugar, com app para os técnicos e integração com o ERP Senior.
Quem deve poder abrir uma não conformidade?
Em muitas plantas, só a qualidade abre NC. O resultado é previsível: o operador vê o problema, avisa o líder, o líder comenta na reunião, e o registro nunca nasce. Quando a NC aparece, é porque o cliente reclamou.
O caminho mais eficiente é deixar qualquer pessoa registrar uma ocorrência com foto e local, de preferência pelo celular e no momento em que vê, e deixar a triagem com a qualidade. A triagem decide se aquilo é uma não conformidade formal, uma observação ou um pedido de manutenção comum. Abrir o registro não significa abrir investigação para tudo; significa não perder a informação. Em frigoríficos e laticínios, onde a inspeção oficial cobra os programas de autocontrole, esse registro de base faz diferença na hora de mostrar que a empresa detecta os próprios desvios.
Como medir se a gestão de não conformidades funciona
Contar NCs abertas é pouco. Quatro números dizem mais:
- Idade das NCs abertas. Quantas estão abertas há mais de 30, 60, 90 dias. NC velha é ação corretiva que ninguém executou.
- Taxa de reincidência. Percentual de NCs que repetem a mesma causa num mesmo ativo ou processo em 12 meses. Se passa de 15% ou 20%, as análises de causa estão rasas.
- Proporção de ações do tipo “treinamento”. Treinamento é ação válida quando a causa é desconhecimento. Quando aparece em mais da metade das NCs, provavelmente está tapando causa de processo.
- Eficácia verificada. Percentual de NCs encerradas com verificação de eficácia registrada, e não só com “ação concluída”.
Erros que fazem a mesma NC voltar
- Culpar a pessoa. “Falha humana” quase nunca é causa raiz. A pergunta seguinte é: o que no processo permitiu o erro?
- Encerrar na data da ação, não da eficácia. A ação foi feita; não quer dizer que funcionou.
- NC sem dono. Uma NC com ações de qualidade, manutenção e produção precisa de um coordenador único.
- Tratar cada NC isolada. Dez NCs de vazamento em dez bombas diferentes podem ter uma causa comum, como selo especificado errado. Só a análise de tendência mostra isso.
Uma boa forma de começar é pegar as dez NCs encerradas mais recentes e checar duas coisas: a causa registrada é uma causa de processo ou apenas a descrição do efeito? Houve verificação de eficácia? O resultado costuma mostrar onde o fluxo quebra. A partir daí, o ciclo de melhoria contínua e o preparo de evidências para auditoria ficam bem mais simples.
Perguntas frequentes
O que é não conformidade?
É o não atendimento de um requisito, seja ele uma especificação de produto, um procedimento interno, uma norma, uma exigência legal ou um requisito de cliente. Toda NC deve ter o requisito violado identificado e uma evidência do que foi encontrado.
Qual a diferença entre correção e ação corretiva?
A correção elimina a não conformidade detectada, como retrabalhar um lote ou reajustar uma máquina. A ação corretiva elimina a causa, para que o problema não se repita, mudando o processo, o plano de manutenção ou o procedimento.
Quando uma não conformidade pode ser encerrada?
Depois que as ações corretivas foram executadas e a eficácia foi verificada após um prazo definido, com critério objetivo. Encerrar a NC na data em que a ação foi concluída, sem checar se o problema voltou, é um dos erros mais comuns.
Que ferramenta usar para achar a causa de uma não conformidade?
Para cadeias de causa simples, os cinco porquês resolvem; quando há várias causas possíveis, o diagrama de Ishikawa ajuda a organizar a investigação. Falhas de equipamento recorrentes pedem uma análise de causa raiz mais estruturada, com dados do histórico de manutenção.