Guia da Manutenção › Artigos

Limpeza de instrumentais cirúrgicos: métodos e testes

Limpeza de instrumentais cirúrgicos é a remoção da sujidade orgânica e inorgânica, com redução da carga microbiana, por ação mecânica manual ou automatizada, usando água, detergente e acessórios, para deixar o instrumental seguro para manuseio e pronto para desinfecção ou esterilização. É a etapa mais importante do fluxo da CME, porque nenhuma autoclave esteriliza o que está protegido por uma camada de sangue seco.

A frase não é exagero de treinamento. O manual da OMS e da OPAS, Decontamination and Reprocessing of Medical Devices for Health-care Facilities (2016), descreve a limpeza como a etapa mais complexa e importante do processamento. E o surto de micobactéria de crescimento rápido que o Brasil viveu entre 2003 e 2008 teve, segundo nota do Conselho Federal de Medicina, a maior parte das infecções ligada a falhas de limpeza e esterilização.

O que a RDC 15 exige da limpeza?

A definição está no artigo 4º da RDC 15/2012:

“XIII – limpeza: remoção de sujidades orgânicas e inorgânicas, redução da carga microbiana presente nos produtos para saúde, utilizando água, detergentes, produtos e acessórios de limpeza, por meio de ação mecânica (manual ou automatizada), atuando em superfícies internas (lúmen) e externas, de forma a tornar o produto seguro para manuseio e preparado para desinfecção ou esterilização;”

E a Seção VI traz as regras práticas. As mais cobradas:

“Art. 66 Na limpeza manual, a fricção deve ser realizada com acessórios não abrasivos e que não liberem partículas.”

“Art. 67 No CME Classe II e na empresa processadora, a limpeza de produtos para saúde com conformações complexas deve ser precedida de limpeza manual e complementada por limpeza automatizada em lavadora ultrassônica ou outro equipamento de eficiência comprovada.

Parágrafo único. Para produtos para saúde cujo lúmen tenha diâmetro interno inferior a cinco milímetros é obrigatório que a fase automatizada da limpeza seja feita em lavadora ultrassônica com conector para canulados e que utilize tecnologia de fluxo intermitente.”

“Art. 73 É obrigatório o monitoramento, com periodicidade definida em protocolo elaborado pelo CME ou pela Empresa Processadora, da limpeza dos produtos para saúde e dos equipamentos automatizados de limpeza dos produtos para saúde.”

Repare que o artigo 73 deixa a periodicidade para o protocolo da CME. Isso dá liberdade e responsabilidade: a Vigilância vai perguntar qual é o protocolo e onde estão os registros.

Limpeza manual, ultrassônica ou automatizada: quando usar cada uma?

As três não competem, se complementam. A escolha depende da conformação do instrumental e da classe da CME.

Método Como age Onde é indispensável Cuidados
Manual Fricção com escova, pistola de água sob pressão em lúmen Primeira fase de produtos complexos (art. 67); peças que não vão para máquina Acessório não abrasivo (art. 66); escovar submerso para não gerar aerossol
Ultrassônica Cavitação: ondas acústicas formam e implodem microbolhas que soltam a sujidade (art. 4º, XII) Articulações, serrilhas, cremalheiras; lúmen menor que 5 mm com conector e fluxo intermitente (art. 67, parágrafo único) Pré-limpeza antes; instrumental aberto e submerso; tampa fechada
Termodesinfectora Jatos de água sob pressão, detergente e enxágue final quente que desinfeta Rotina de volume; padroniza o processo e reduz manuseio de material contaminado Carga sem sobreposição, braços aspersores livres, ciclo validado

Ultrassônica: os detalhes que mudam o resultado

O manual da OMS lista recomendações que muita CME ignora: temperatura da solução entre 27 °C e 43 °C e nunca acima de 60 °C, porque proteínas coagulam acima disso; troca da água diariamente e sempre que estiver visivelmente suja; desgaseificação a cada enchimento, rodando um ciclo de 5 a 10 minutos com a tampa fechada; instrumental aberto, totalmente submerso e com lúmens preenchidos. O mesmo manual sugere validar o processo diariamente com inspeção visual e teste de folha de alumínio (foil test), mais testes comerciais pelo menos uma vez por ano.

Termodesinfectora

Na lavadora automatizada, a ação vem do impacto da água, do detergente e da temperatura. O ciclo típico tem pré-enxágue, lavagem enzimática, lavagem com detergente, enxágue e termodesinfecção, às vezes com lubrificação. Requisitos de desempenho, testes e o conceito de A0 estão no artigo sobre a lavadora termodesinfectora e a ISO 15883.

Detergentes: o que a RDC 55/2012 define

O detergente enzimático para limpeza de dispositivos médicos tem regulamento próprio, a RDC 55, de 14 de novembro de 2012. A definição do artigo 4º:

“I – detergente enzimático para limpeza de dispositivos médicos: produto cuja formulação contém, além de um tensoativo, pelo menos uma enzima hidrolítica da subclasse das proteases EC 3.4, podendo ser acrescida de outra enzima da subclasse das amilases EC 3.2 e demais componentes complementares da formulação, inclusive de enzimas de outras subclasses, tendo como finalidade remover a sujidade clínica e evitar a formação de compostos insolúveis na superfície desses dispositivos;”

A mesma norma enquadra esses produtos como risco 2, sujeitos a registro na Anvisa (art. 5º), e restringe o uso a aplicação profissional (art. 7º). Na prática, três cuidados evitam a maior parte dos problemas: diluir na proporção e na temperatura do fabricante (enzima fora da faixa perde atividade), respeitar o tempo de contato e trocar a solução no intervalo definido, nunca “completando” a cuba. Detergente neutro e desincrustante também têm lugar na rotina, conforme o tipo de sujidade e a recomendação do fabricante do instrumental.

A água também é parte da limpeza

Instrumental bem escovado e enxaguado com água ruim sai manchado, com depósitos e, às vezes, com endotoxina. A RDC 15 trata disso em dois artigos:

“Art. 68 O enxágue dos produtos para saúde deve ser realizado com água que atenda aos padrões de potabilidade definidos em normatização específica.

Parágrafo único. O enxágue final de produtos para saúde críticos utilizados em cirurgias de implantes ortopédicos, oftalmológicos, cirurgias cardíacas e neurológicas deve ser realizado com água purificada.”

“Art. 74 O CME Classe II e a empresa processadora devem realizar o monitoramento e registro, com periodicidade definida em protocolo, da qualidade da água, incluindo a mensuração da dureza da água, ph, íons cloreto, cobre, ferro, manganês e a carga microbiana nos pontos de enxágue da área de limpeza.”

Esse monitoramento costuma ficar sem dono: a CME acha que é da engenharia, a engenharia acha que é da CME. Defina no protocolo quem coleta, qual laboratório analisa, em quais pontos e com que frequência, e trate o resultado fora da faixa como não conformidade com ação registrada.

Quer a rastreabilidade da sua CME sem papel?O Sismetro registra limpeza, preparo, ciclo, indicadores e uso no paciente de cada instrumental, kit e caixa, com etiqueta, DataMatrix e os registros que a RDC 15 pede.

Agendar demonstração ou conheça o software para CME

Como verificar se o instrumental ficou limpo?

A verificação tem dois níveis: o produto (esta peça está limpa?) e o processo (esta lavadora limpa bem?).

No produto: inspeção com lente

“Art. 76 A limpeza dos produtos para saúde, seja manual ou automatizada, deve ser avaliada por meio da inspeção visual, com o auxílio de lentes intensificadoras de imagem, de no mínimo oito vezes de aumento, complementada, quando indicado, por testes químicos disponíveis no mercado.”

Articulação, serrilha, cremalheira e a ponta das pinças são os lugares onde a sujidade fica. Peça reprovada volta para a limpeza, e o retorno deve ser registrado (a rotina completa da bancada está em inspeção e preparo de instrumentais): a taxa de reprocessamento por falha de limpeza é um dos indicadores mais úteis da CME.

No processo: testes periódicos

Para o processo, a referência mais detalhada de acesso livre é o HTM 01-01 Parte D, do NHS England (edição de 2016). Ele propõe testes diários pelo usuário (giro dos braços aspersores, bicos desobstruídos, filtros limpos, dosagem de químicos e um dispositivo desafio de processo para eficácia de limpeza), testes semanais, trimestrais e anuais. Três pontos do documento merecem atenção:

  • o limite de referência adotado no Reino Unido para proteína residual é de 5 µg, em equivalente de albumina bovina, por lado de instrumental, com limite menor para neurocirurgia;
  • o documento afirma que o kit de ninidrina por swab, muito usado, é pouco sensível, e que a proteína deve ser medida na superfície do instrumental, não por swab ou eluição;
  • métodos que não têm proteína como alvo, como o ATP, não substituem a detecção de proteína residual.

Esses números são da regulação inglesa, não da brasileira. Servem como referência técnica para montar o protocolo exigido pelo artigo 73 da RDC 15, que no Brasil é definido pela própria CME.

Erros que aparecem em toda auditoria

  • Instrumental fechado na cuba ou na lavadora. Articulação fechada não é limpa por dentro.
  • Sobrecarga na termodesinfectora. Bandeja sobre bandeja cria sombra para os jatos.
  • Diluição “no olho”. Sem dosador ou medida, o enzimático vira variável.
  • Lavadora parada sem plano B. A fila no expurgo deixa a sujidade secar. A manutenção preventiva das lavadoras, com histórico em um sistema de gestão de manutenção, reduz essas paradas.
  • Teste feito e não registrado. Para a inspeção, teste sem registro não existe.

Como o Sismetro ajuda

No software para CME do Sismetro, a limpeza vira um lote com número, lavadora, operador, início e fim do ciclo e os itens processados. O saneante usado fica cadastrado com o registro na Anvisa, e um item sem limpeza registrada não entra na montagem do kit. O relatório de itens limpos e o cruzamento limpeza x embalagem mostram o que passou pela lavadora e o que pulou a etapa.

Próximo passo prático: escolha as cinco caixas mais complexas da sua CME (videocirurgia, ortopedia, neuro) e confira, para cada uma, se o POP de limpeza diz qual método, qual detergente, qual diluição, qual teste e onde fica o registro. Onde faltar uma dessas respostas, o POP precisa ser revisto antes da próxima inspeção.

Perguntas frequentes

Qual a ordem correta da limpeza de instrumentais?

Pré-limpeza no local de uso, recepção, limpeza manual com fricção quando indicada, limpeza automatizada (ultrassônica e ou termodesinfectora), enxágue e secagem. Na CME classe II, produtos de conformação complexa precisam de limpeza manual seguida de automatizada, conforme o artigo 67 da RDC 15/2012.

Detergente enzimático é obrigatório?

A RDC 15/2012 não obriga um tipo específico de detergente, mas exige produtos regularizados e POP com base científica. O detergente enzimático para dispositivos médicos é regulado pela RDC 55/2012, que exige registro na Anvisa e pelo menos uma protease na formulação.

Como saber se o instrumental ficou limpo?

A RDC 15 exige inspeção visual com lente de no mínimo oito vezes de aumento, complementada por testes químicos quando indicado. Para monitorar o processo, use testes periódicos de eficácia das lavadoras e de detecção de proteína residual, com registro e análise de tendência.

Pode usar escova de aço na limpeza manual?

Não. O artigo 66 da RDC 15 exige acessórios não abrasivos e que não liberem partículas. Escova metálica e esponja abrasiva riscam a superfície e criam pontos onde a sujidade e a corrosão se instalam.

Quer ver isso funcionando na sua operação?

O Sismetro organiza ordens de serviço, preventivas, estoque de peças e indicadores como MTBF e MTTR em um só lugar, com app para os técnicos e integração com o ERP Senior. Feito para indústria e agroindústria.

Prefere conversar agora? Chame a gente no WhatsApp.

Continue lendo no Guia da Manutenção

Deixe seu contato e nossa equipe libera o seu teste de 15 dias

Deixe seu contato e alguém do nosso time marca a sua demonstração