Guia da Manutenção › Artigos

Inspeção e preparo de instrumentais: lupa, teste e caixa

Inspeção e preparo de instrumentais é a etapa da CME em que cada peça limpa é examinada com lupa, testada quanto à função, lubrificada quando indicado, montada na caixa conforme a lista e embalada para esterilização. É o primeiro momento, depois do expurgo, em que alguém olha peça por peça. Tudo o que passar daqui vai para a autoclave e, depois, para o campo cirúrgico.

A bancada de preparo é também onde a CME mais perde tempo e onde mais nasce retrabalho: peça reprovada que volta para a limpeza, caixa montada com item trocado, pacote que abre no centro cirúrgico com a pinça errada. Um preparo bem feito reduz as três coisas.

O que a RDC 15/2012 exige nessa etapa?

A Seção VII da RDC 15/2012 trata de inspeção, preparo e acondicionamento. O artigo que define a inspeção:

“Art. 76 A limpeza dos produtos para saúde, seja manual ou automatizada, deve ser avaliada por meio da inspeção visual, com o auxílio de lentes intensificadoras de imagem, de no mínimo oito vezes de aumento, complementada, quando indicado, por testes químicos disponíveis no mercado.”

A mesma seção exige embalagens que garantam a manutenção da esterilidade e a transferência asséptica (art. 77), regularizadas na Anvisa para uso em esterilização (art. 78), e proíbe caixas metálicas sem furos (art. 81). A sala de preparo e esterilização da classe II precisa ter, pelo artigo 53, equipamento de transporte com rodízio, secadora e pistolas de ar comprimido medicinal, gás inerte ou ar filtrado, seco e isento de óleo, seladoras e estações de trabalho com cadeiras ergonômicas de altura regulável. A climatização dessa sala fica entre 20 e 24 °C, com pressão positiva em relação aos ambientes vizinhos (art. 54).

Como fazer a inspeção, peça por peça

O manual da OMS e da OPAS, Decontamination and Reprocessing of Medical Devices for Health-care Facilities (2016), traz uma lista prática para a inspeção e o teste de função após a limpeza. Adaptada como checklist de bancada:

  • Articulações, serrilhas e frestas: inspeção crítica de limpeza, com lupa e boa luz.
  • Dobradiças de pinças e clamps: movimento livre, sem travar.
  • Mordentes e dentes: alinhamento.
  • Cremalheiras: travamento seguro.
  • Instrumentais de várias partes: montados para conferir que estão completos e funcionando, e desmontados para esterilizar quando o fabricante indicar.
  • Canulados: canal pérvio.
  • Ópticas e cabos de luz: teste de função conforme o fabricante.
  • Bordas cortantes de tesouras, goivas, cinzéis e curetas: fio.
  • Instrumentais com isolamento, como pinças de diatermia: isolamento íntegro, verificado com testador de isolamento conforme o fabricante.
  • Parafusos de peças articuladas: apertados depois do ciclo de limpeza.

O mesmo manual recomenda que qualquer peça danificada, incompleta ou com mau funcionamento seja comunicada imediatamente ao supervisor, e que os registros de todos os dispositivos inspecionados e testados sejam mantidos.

O que fazer com a peça reprovada

Há três destinos, e cada um precisa de registro: volta para a limpeza (sujidade residual), vai para manutenção (fio, alinhamento, isolamento, corrosão) ou é baixada (sem conserto). Peça que vai para conserto e não tem registro de saída é a origem de boa parte dos “extravios” que a CME investiga depois, tema de perda e extravio de instrumental.

Lubrificação: quando e com o quê

O manual da OMS é específico: o lubrificante serve só para proteger o dispositivo e deve ser solúvel em água. Os pontos principais:

  • lubrificar conforme a instrução do fabricante do instrumental, que define as partes, o produto, o preparo e a quantidade;
  • lubrificante incompatível pode inibir a esterilização, gerar subprodutos e danificar o dispositivo ou o esterilizador;
  • o instrumental deve estar descontaminado e sem sujidade visível ou ferrugem antes de lubrificar;
  • não reutilizar recipientes de lubrificante, descartar o produto vencido ou com sujidade visível e prepará-lo conforme o fabricante;
  • não usar substância oleosa para lubrificar.

O erro mais comum na prática é o “óleo de máquina” guardado na gaveta da bancada. O próprio manual da OMS lista os óleos entre os materiais inadequados para esterilização a vapor: a película oleosa dificulta o contato do vapor com a superfície que deveria ser esterilizada.

Quer a rastreabilidade da sua CME sem papel?O Sismetro registra limpeza, preparo, ciclo, indicadores e uso no paciente de cada instrumental, kit e caixa, com etiqueta, DataMatrix e os registros que a RDC 15 pede.

Agendar demonstração ou conheça o software para CME

Como montar a caixa cirúrgica

A montagem tem dois objetivos que às vezes brigam entre si: deixar a caixa prática para a instrumentadora e deixar todas as superfícies expostas ao vapor. O manual da OMS lista as regras de preparo:

  1. instrumental limpo e seco;
  2. peças articuladas na posição aberta ou destravada;
  3. peças de várias partes ou deslizantes desmontadas, salvo indicação contrária do fabricante;
  4. superfícies côncavas posicionadas para não acumular condensado;
  5. peças pesadas arrumadas de forma a não danificar as delicadas;
  6. pontas cortantes protegidas, sem aperto excessivo, com protetores validados para penetração do vapor;
  7. cremalheiras fechadas só no primeiro dente;
  8. de preferência em uma única camada, com o peso distribuído pela bandeja para que o condensado não se junte num ponto;
  9. cada peça conferida contra a lista específica da caixa.

O manual faz uma observação que vale como regra: não colocar a lista de conferência em papel dentro da caixa, porque o papel solta fibras que podem passar para o instrumental. A conferência precisa existir, mas fora da caixa.

Falta ou sobra de peça

Peça faltando ou sobrando na montagem deve ser comunicada ao supervisor e documentada como não conformidade, também segundo a OMS. Na prática brasileira, a decisão sobre enviar a caixa incompleta, completar com peça de reposição ou segurar a caixa deve estar no POP, porque a pergunta vai aparecer às 6h da manhã com o cirurgião esperando.

A composição da caixa também é assunto do preparo

Quem monta caixa todo dia sabe que muita peça vai e volta sem uso. Um estudo publicado na Revista SOBECC em 2015 observou cirurgias num hospital do interior de São Paulo e encontrou que, em média, cerca de 52% dos instrumentais das caixas não eram usados (934 instrumentais avaliados). Cada peça a mais na caixa é peça a mais para limpar, inspecionar, montar, esterilizar e eventualmente perder.

Por isso vale revisar o kit padrão de cada caixa com as equipes cirúrgicas de tempos em tempos: lista de itens e quantidades, versão, invólucro, validade e quem aprovou a mudança. Um exemplo hipotético: se a caixa de cirurgia geral tem 64 peças e a revisão com a equipe tira 14 que nunca são usadas, são 14 inspeções a menos por montagem e uma bandeja mais leve na autoclave.

Embalagem e rótulo

Montada, a caixa vai para o invólucro adequado ao método de esterilização: grau cirúrgico, SMS, tecido de algodão (com plano de substituição, art. 82) ou contêiner rígido. Tipos e validade estão em embalagens para esterilização.

O rótulo é obrigatório (art. 83), deve se manter legível e afixado até o momento do uso (art. 84) e tem conteúdo mínimo definido:

“Art. 85 O rótulo de identificação da embalagem deve conter:

I – nome do produto;

II – número do lote;

III – data da esterilização;

IV – data limite de uso;

V – método de esterilização;

VI – nome do responsável pelo preparo.”

O inciso VI é o que mais falta em CME que trabalha com etiqueta pré-impressa: o lote e a data estão lá, mas ninguém sabe quem montou. O detalhamento de cada campo está em etiqueta de esterilização.

Como o Sismetro ajuda

No software para CME do Sismetro, a montagem segue o kit padrão da caixa, com versão, invólucro e validade por método. O técnico bipa cada peça (DataMatrix ou RFID, quando o instrumental é identificado), o sistema compara requeridos com incluídos, avisa quantidade divergente e item rastreável não previsto, e a etiqueta sai com quem montou e quando. O instrumental que sai para conserto vai por solicitação de serviço e volta com registro, e o relatório de kits sem check final mostra o que escapou da conferência.

Próximo passo prático: na próxima semana, registre por cinco dias todas as peças reprovadas na bancada, com o motivo (sujidade, função, corrosão, isolamento). A lista vai mostrar se o problema está na limpeza, na manutenção do instrumental ou no uso.

Perguntas frequentes

Qual lupa a RDC 15 exige na inspeção?

A RDC 15/2012 exige lentes intensificadoras de imagem de no mínimo oito vezes de aumento para avaliar a limpeza, complementadas por testes químicos quando indicado. Uma lupa de bancada com iluminação atende melhor do que a lupa de mão, porque deixa as duas mãos livres.

Como lubrificar instrumentais cirúrgicos?

Com lubrificante solúvel em água, compatível com o instrumental e com a esterilização a vapor, aplicado conforme a instrução do fabricante e só em peça limpa e sem ferrugem. O manual da OMS desaconselha substâncias oleosas e alerta que lubrificante incompatível pode inibir a esterilização.

Pode colocar a lista de conferência dentro da caixa?

Não é recomendado se a lista for de papel comum. O manual da OMS aponta que o papel solta fibras que podem passar para o instrumental. A conferência deve ficar registrada fora da caixa, em sistema ou em formulário próprio.

O que fazer quando falta uma peça na caixa?

Registrar a falta como não conformidade e comunicar o supervisor antes de liberar a caixa. A decisão de enviar incompleta, completar com peça de reposição ou segurar a caixa deve seguir o POP e ficar registrada, com o nome de quem decidiu.

Quer ver isso funcionando na sua operação?

O Sismetro organiza ordens de serviço, preventivas, estoque de peças e indicadores como MTBF e MTTR em um só lugar, com app para os técnicos e integração com o ERP Senior. Feito para indústria e agroindústria.

Prefere conversar agora? Chame a gente no WhatsApp.

Continue lendo no Guia da Manutenção

Deixe seu contato e nossa equipe libera o seu teste de 15 dias

Deixe seu contato e alguém do nosso time marca a sua demonstração