Embalagem para esterilização é o invólucro que deixa o ar sair e o agente esterilizante entrar, e depois impede a entrada de microrganismos até o momento do uso. As mais usadas na CME são o envelope de papel grau cirúrgico com filme, o não tecido SMS, o tecido de algodão e o contêiner rígido. A validade do pacote, no Brasil, não é um número fixo: é definida pela própria instituição com base na integridade da embalagem, o que na prática se chama validade por evento relacionado.
A embalagem costuma ser tratada como insumo de almoxarifado. É um erro: é ela que mantém a esterilidade conquistada na autoclave, às vezes por semanas, passando por prateleira, carrinho, elevador e sala cirúrgica.
O que a RDC 15/2012 diz sobre embalagem?
A definição está no artigo 4º da RDC 15/2012:
“XI – embalagem para esterilização de produtos para saúde: invólucro que permite a entrada e saída do ar e do agente esterilizante e impede a entrada de microorganismos:”
E as regras práticas estão na Seção VII:
“Art. 77 O CME e a empresa processadora devem utilizar embalagens que garantam a manutenção da esterilidade do conteúdo, bem como a sua transferência sob técnica asséptica.”
“Art. 78 As embalagens utilizadas para a esterilização de produtos para saúde devem estar regularizadas junto à Anvisa, para uso especifico em esterilização.”
“Art. 79 Não é permitido o uso de embalagens de papel kraft, papel toalha, papel manilha, papel jornal e lâminas de alumínio, assim como as embalagens tipo envelope de plástico transparente não destinadas ao uso em equipamentos de esterilização.”
“Art. 80 A selagem de embalagens tipo envelope deve ser feita por termoseladora ou conforme orientação do fabricante.”
“Art. 81 Não é permitido o uso de caixas metálicas sem furos para esterilização de produtos para saúde.”
Para o tecido de algodão, o artigo 82 pede um plano com critérios de aquisição e substituição do arsenal de embalagens de tecido, com registro da movimentação, e proíbe tecido remendado ou cerzido. Sempre que houver perfuração, rasgo, desgaste ou comprometimento da barreira, o uso deve ser suspenso. E o artigo 38 exige que as seladoras térmicas sejam calibradas no mínimo uma vez por ano, o que coloca a seladora no mesmo controle de calibração de qualquer instrumento de processo.
Quais são os tipos de embalagem e onde cada uma serve?
A referência internacional para materiais e sistemas de barreira estéril é a ISO 11607-1:2019, que trata dos requisitos para materiais, sistemas de barreira estéril e sistemas de embalagem de dispositivos médicos esterilizados. O manual da OMS e da OPAS, Decontamination and Reprocessing of Medical Devices for Health-care Facilities (2016), traduz isso para a rotina da central. A tabela resume as orientações do manual:
| Embalagem | Uso típico | Pontos de atenção |
|---|---|---|
| Papel grau cirúrgico com filme (envelope) | Peças avulsas e pequenos conjuntos, vapor e óxido de etileno | Colocar na autoclave papel com plástico, conforme o manual; uma peça por envelope; selagem íntegra; não serve para peróxido de hidrogênio, porque o papel absorve o agente |
| Papel crepado e não tecidos de celulose com fibra sintética | Embrulho de bandejas, vapor e óxido de etileno | Permeáveis a vapor, ar e gases; boa barreira se o pacote ficar limpo e seco; soltam partículas se rasgados na abertura |
| Não tecido sintético (SMS de polipropileno) | Embrulho de caixas; também usado em métodos de baixa temperatura quando validado | Para peróxido de hidrogênio, só embalagem validada para o método |
| Tecido de algodão ou algodão com poliéster | Pacotes pesados em autoclave a vapor | Barreira inferior aos invólucros de uso único; duas camadas; inspeção a cada uso; plano de substituição (art. 82) |
| Contêiner rígido | Caixas grandes de instrumental em vapor | Filtro e vedação inspecionados; carga com densidade adequada para não reter umidade; validação antes do uso; empilhar só se o fabricante validou |
Duas observações do manual merecem destaque. Primeiro, embalagem dupla é recomendada para dispositivos usados no centro cirúrgico, mas duas camadas de sistema de barreira à base de papel não são recomendadas como método de embrulho, porque aumentam a chance de o vapor não penetrar. Segundo, papel, tecido e líquidos não podem ser processados em peróxido de hidrogênio; para esse método, invólucros de polipropileno e envelopes com Tyvek precisam estar validados. O assunto volta em esterilização a baixa temperatura.
Armazenamento do material de embalagem
O manual recomenda guardar o material de embalagem entre 18 °C e 22 °C, com umidade relativa entre 35% e 70%, longe de paredes externas, sobre prateleiras afastadas do chão e com rotação “primeiro que entra, primeiro que sai”. Papel que fica ao lado da autoclave, num canto úmido, chega ao preparo fora do equilíbrio de umidade e é uma das causas de pacote molhado.
Como definir a validade do pacote?
A RDC 15 não fixa prazo. Ela define o conceito:
“VII – data limite de uso do produto esterilizado: prazo estabelecido em cada instituição, baseado em um plano de avaliação da integridade das embalagens, fundamentado na resistência das embalagens, eventos relacionados ao seu manuseio (estocagem em gavetas, empilhamento de pacotes, dobras das embalagens), condições de umidade e temperatura, segurança da selagem e rotatividade do estoque armazenado;”
E atribui a regra ao responsável pela CME:
“Art. 102 O responsável pelo CME deve estabelecer as regras para o controle dos eventos que possam comprometer a integridade e selagem da embalagem dos produtos para saúde.”
É a lógica da validade por evento relacionado. O guia de desinfecção e esterilização do CDC registra que muitos hospitais passaram a adotá-la: o produto deve permanecer estéril até que algum evento cause sua contaminação, e a probabilidade de contaminação aumenta com o manuseio. Na mesma linha, o manual da OMS orienta que qualquer item esterilizado que fique molhado, caia, rasgue, seja comprimido ou mal manuseado seja considerado contaminado e reprocessado.
Quer a rastreabilidade da sua CME sem papel?O Sismetro registra limpeza, preparo, ciclo, indicadores e uso no paciente de cada instrumental, kit e caixa, com etiqueta, DataMatrix e os registros que a RDC 15 pede.
Um plano de validade em cinco passos
- Liste os eventos que invalidam o pacote: queda no chão, umidade ou mancha, rasgo, furo, selagem aberta ou enrugada, compressão (pacote amassado em gaveta), etiqueta ilegível, indicador externo sem viragem.
- Defina condições de guarda: local exclusivo e de acesso restrito (art. 60), prateleiras não porosas (art. 61), longe de luz solar direta e com manipulação mínima (art. 101). Monitore temperatura e umidade da sala.
- Defina um prazo administrativo por tipo de embalagem como teto de giro de estoque, baseado no seu plano e nas instruções do fabricante da embalagem. Ele não substitui a avaliação por evento; serve para forçar a rotação.
- Treine quem manuseia, inclusive no centro cirúrgico e nas unidades, a inspecionar o pacote antes de abrir e a devolver o que tiver sofrido evento.
- Registre e revise: pacotes devolvidos por evento, com o motivo, mostram onde o manuseio está falhando (gaveta apertada, carrinho sem proteção, prateleira úmida).
Um exemplo hipotético: uma CME com 2.400 pacotes no arsenal registra, em um mês, 31 devoluções por evento. Vinte delas são de envelopes amassados numa mesma gaveta da sala de procedimentos. A solução não é encurtar a validade de todo o arsenal: é trocar a gaveta por uma prateleira aramada e ajustar o volume enviado.
Erros comuns com embalagem
- Pacote molhado liberado. Umidade compromete a barreira; o manual da OMS manda considerar o conteúdo contaminado.
- Selagem com seladora sem calibração. Temperatura baixa deixa canal; alta queima o papel. O artigo 38 exige calibração anual.
- Tecido sem controle de ciclos. Sem registro de entradas e baixas, ninguém sabe quantas lavagens o campo já tem, e o artigo 82 pede esse controle.
- Contêiner sem manutenção. Filtro vencido, válvula travada ou vedação ressecada anulam a barreira.
- Embalagem errada para o método. Papel em peróxido de hidrogênio é a falha clássica.
Como o Sismetro ajuda
No software para CME do Sismetro, cada invólucro é cadastrado com o método de esterilização e a validade em dias, e o kit padrão de cada caixa diz qual invólucro usar. A validade da etiqueta sai dessa regra, e o arsenal mostra o status de cada kit: válido, vencendo em breve, vencido, utilizado ou baixado. A seladora pode ficar no cadastro de patrimônio com a calibração anual controlada. Para os campos da etiqueta, veja etiqueta de esterilização; para a etapa anterior, inspeção e preparo de instrumentais.
O que dá para fazer hoje: escreva hoje a lista de eventos que invalidam um pacote na sua CME e cole na porta do arsenal e nas salas que recebem material. É o primeiro documento do plano que o artigo 4º, inciso VII, pede.
Perguntas frequentes
Qual a validade de um pacote esterilizado?
Não existe um prazo único na RDC 15/2012. A norma define a data limite de uso como um prazo estabelecido por cada instituição, baseado em plano de avaliação da integridade das embalagens, considerando material, manuseio, umidade, temperatura, selagem e rotatividade do estoque.
O que é validade por evento relacionado?
É a prática de considerar o produto estéril até que um evento comprometa a embalagem, como queda, umidade, rasgo, compressão ou selagem violada. O guia do CDC registra que muitos hospitais adotaram essa prática, porque a contaminação depende mais do manuseio do que do tempo.
Pode usar papel kraft para esterilizar?
Não. O artigo 79 da RDC 15/2012 proíbe papel kraft, papel toalha, papel manilha, papel jornal, lâminas de alumínio e envelopes de plástico transparente não destinados a equipamentos de esterilização.
Grau cirúrgico serve para peróxido de hidrogênio?
Não. Embalagens à base de papel absorvem o peróxido e interferem no ciclo. Para peróxido de hidrogênio, usa-se embalagem sintética validada para o método, como não tecido de polipropileno ou envelope com Tyvek, conforme o manual da OMS e a instrução do fabricante do equipamento.