A curva ABC de sobressalentes ordena as peças do almoxarifado de manutenção pelo valor de consumo anual (quantidade consumida × custo unitário) e divide os itens em três classes: A, os poucos itens que concentram a maior parte do valor; B, os intermediários; e C, a grande quantidade de itens de valor baixo. Ela diz onde concentrar controle e negociação. Não diz, sozinha, o que é crítico.
Essa segunda frase é a que mais se esquece. A curva ABC nasceu para gestão de estoques em geral e funciona muito bem para dinheiro. Na manutenção, um fusível de R$ 28 classe C pode parar uma linha inteira, e uma política que trata todo item C como “compra quando faltar” acaba criando parada por falta de peça barata.
Como montar a curva ABC de sobressalentes passo a passo
- Extraia o consumo de 12 meses por item, de preferência das saídas vinculadas a ordens de serviço.
- Multiplique pelo custo unitário (custo médio do estoque ou último preço de compra, sempre o mesmo critério).
- Ordene do maior para o menor valor de consumo.
- Calcule o percentual de cada item sobre o total e o percentual acumulado.
- Defina os cortes. Os mais usados são A até cerca de 80% do valor acumulado, B até cerca de 95% e C o restante. São convenções; ajuste se fizer sentido, mas mantenha o mesmo critério ao longo dos anos.
Exemplo resolvido com dez itens
Um almoxarifado real tem milhares de códigos. O exemplo abaixo usa dez itens hipotéticos para mostrar a mecânica:
| Item | Consumo anual | Custo unitário | Valor de consumo | % do total | % acumulado | Classe |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Selo mecânico de bomba de processo | 14 un | R$ 6.800 | R$ 95.200 | 36,2% | 36,2% | A |
| Rolamento autocompensador de rolos | 10 un | R$ 4.150 | R$ 41.500 | 15,8% | 51,9% | A |
| Correia transportadora (metro) | 120 m | R$ 310 | R$ 37.200 | 14,1% | 66,1% | A |
| Óleo para redutor ISO VG 320 (litro) | 1.800 L | R$ 19 | R$ 34.200 | 13,0% | 79,1% | A |
| Contator 95 A | 22 un | R$ 1.100 | R$ 24.200 | 9,2% | 88,3% | B |
| Elemento de filtro hidráulico | 60 un | R$ 210 | R$ 12.600 | 4,8% | 93,1% | B |
| Correia em V | 140 un | R$ 48 | R$ 6.720 | 2,6% | 95,6% | C |
| Graxa (kg) | 300 kg | R$ 21 | R$ 6.300 | 2,4% | 98,0% | C |
| Kit de parafusos e porcas | 90 un | R$ 35 | R$ 3.150 | 1,2% | 99,2% | C |
| Fusível NH | 75 un | R$ 28 | R$ 2.100 | 0,8% | 100,0% | C |
| Total | R$ 263.170 | 100% |
Os quatro primeiros itens somam R$ 208.100, ou 79,1% do valor. O contator e o filtro levam o acumulado a 93,1% e ficam em B. A correia em V passaria de 95% e cai em C, junto com graxa, parafusos e fusível.
Com dez itens, a divisão fica em 4, 2 e 4. Numa base real, com milhares de códigos, a classe A costuma reunir uma fração pequena dos itens, e a classe C, a maioria. É essa concentração que torna a curva útil: dá para tratar a classe A item a item e a classe C por regras gerais.
O que fazer com cada classe?
- Classe A: mínimo e máximo calculados com cuidado, revisão frequente, negociação de preço e prazo com o fornecedor, contagem cíclica mais frequente. No exemplo, o selo mecânico sozinho é mais de um terço do consumo. Vale perguntar por que se trocam 14 selos por ano: se for falha repetitiva, o ganho está na análise de causa raiz, não no preço.
- Classe B: controle intermediário, revisão de parâmetros uma ou duas vezes por ano.
- Classe C: regras simples, lotes maiores para reduzir pedidos, contagem menos frequente, e cuidado com o que é crítico.
Por que cruzar a curva ABC com a criticidade?
Olhe de novo o fusível NH. Classe C, R$ 2.100 de consumo no ano. Se ele protege o alimentador do motor principal de uma linha e o almoxarifado ficou sem, a linha fica parada até alguém achar um fusível na cidade. O valor de consumo não diz nada sobre isso.
A saída é uma segunda classificação, pela criticidade do ativo onde a peça é usada, e uma política para cada combinação:
| Criticidade alta | Criticidade média | Criticidade baixa | |
|---|---|---|---|
| A | Estoque calculado com nível de serviço alto, conservação e acompanhamento item a item | Estoque calculado, negociação de prazo com fornecedor | Avaliar compra sob demanda ou consignação |
| B | Estoque com nível de serviço alto | Mínimo e máximo padrão | Compra sob demanda se o prazo permitir |
| C | Sempre em estoque, com folga; o custo de sobra é pequeno | Mínimo e máximo simples, lotes maiores | Compra sob demanda ou estoque simples |
A casa “C com criticidade alta” é a mais barata de proteger e a que mais causa parada boba. Sobrar fusível custa pouco. Faltar custa a linha. As peças de valor alto com criticidade alta e prazo longo merecem um tratamento à parte, descrito no artigo sobre peças críticas.
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ABC por consumo ou por saldo em estoque?
Até aqui a curva foi feita pelo valor de consumo anual. Existe outra, feita pelo valor do saldo parado na prateleira, e as duas respondem perguntas diferentes:
- ABC por consumo: onde está o dinheiro que sai todo ano. Orienta reposição, negociação e frequência de contagem.
- ABC por saldo: onde está o capital imobilizado. Mostra excesso e itens parados.
A comparação entre as duas é reveladora. Um item que está no topo da ABC por saldo e no fim da ABC por consumo é estoque parado de valor alto. Às vezes é uma peça de seguro justificada. Muitas vezes é sobra de equipamento desativado, assunto do artigo sobre peças obsoletas.
A curva também organiza o inventário
Outra aplicação direta é a contagem cíclica. Em vez de parar o almoxarifado uma vez por ano para contar tudo, divide-se o estoque em blocos semanais, com frequência maior para a classe A e para os itens críticos e menor para a classe C comum. Uma divisão possível, só como ponto de partida: itens A e críticos contados a cada trimestre, itens B a cada semestre, itens C uma vez por ano. Num almoxarifado de 3.000 códigos com 300 itens A e críticos, 600 B e 2.100 C, isso dá 1.200 contagens de A por ano (300 × 4), mais 1.200 de B (600 × 2) e 2.100 de C, num total de 4.500 contagens, ou cerca de 90 por semana em 50 semanas. É um volume que um almoxarife absorve na rotina, sem fechar o balcão.
O ganho não está só no saldo certo. Cada divergência encontrada num item A ou crítico aponta uma falha de processo (retirada sem requisição, devolução não registrada, código duplicado) que vale corrigir na origem. O artigo de gestão do almoxarifado de manutenção trata dessas causas.
Erros comuns ao montar a curva
- Usar o consumo lançado sem OS. Saídas genéricas para “oficina” escondem onde a peça foi usada e às vezes nem são consumo de verdade, só transferência para o estoque paralelo.
- Misturar unidades. Correia em metro num ano e em rolo no outro estraga a comparação.
- Esquecer itens comprados direto para a OS, sem passar pelo almoxarifado. Eles somem da curva e da negociação.
- Classificar uma vez e nunca mais. Reforma de linha, troca de fornecedor ou um ano com muita corretiva mudam a curva.
- Usar a classe como política única. Já discutido acima, mas vale repetir: ABC é valor, não criticidade.
Como transformar a curva em rotina
Com o consumo registrado na ordem de serviço, a curva deixa de ser projeto anual de planilha e vira consulta. Num CMMS como o Sismetro, as peças baixadas do estoque ficam vinculadas à OS e ao equipamento, então dá para montar a ABC por planta, por linha ou por tipo de manutenção. A ABC só da corretiva, por exemplo, costuma apontar direto para os equipamentos que mais quebram.
Depois da classificação, o passo seguinte é recalcular os parâmetros dos itens A e dos itens críticos com as fórmulas de estoque mínimo e ponto de pedido.
Próximo passo: exporte o consumo dos últimos 12 meses, monte a curva com os cinco passos acima e marque, na lista da classe C, todos os itens usados em ativos críticos. Essa lista curta costuma ser o ganho mais rápido do exercício inteiro.
Perguntas frequentes
Quais são os percentuais da curva ABC?
Os cortes mais usados são classe A até cerca de 80% do valor acumulado, classe B até cerca de 95% e classe C o restante. São convenções, não regras. Cada empresa pode ajustar os limites, desde que use sempre o mesmo critério para comparar ao longo do tempo.
Curva ABC por valor de consumo ou por valor em estoque?
As duas são úteis e respondem perguntas diferentes. A ABC por consumo anual orienta negociação, reposição e frequência de contagem. A ABC por saldo em estoque mostra onde está o capital parado e ajuda a achar excesso e itens obsoletos.
Item classe C pode ser crítico?
Pode, e é comum. Um fusível ou um sensor barato pode parar uma linha inteira. Por isso a curva ABC deve ser cruzada com a criticidade do ativo antes de definir a política de estoque de cada item.
De quanto em quanto tempo refazer a curva ABC?
Uma vez por ano costuma bastar para a maioria dos almoxarifados, e também depois de mudanças grandes, como reforma de linha, entrada de equipamentos novos ou mudança relevante de preços. Com o consumo vinculado às ordens de serviço, refazer é uma consulta.