O estoque mínimo de peças é a quantidade de segurança que protege a manutenção contra variações de consumo e de prazo de entrega. O ponto de pedido é o nível em que a compra deve ser disparada: consumo médio durante o prazo de entrega mais o estoque de segurança. Com esses dois números e um lote de compra, você chega ao estoque máximo.
Na prática, muito almoxarifado de manutenção tem mínimo definido “de cabeça” há anos, por alguém que já saiu da empresa. O resultado aparece dos dois lados: excesso de item que ninguém usa e falta justamente do rolamento que trava a linha. As fórmulas abaixo não são complicadas, e o ganho vem de aplicá-las com dado real.
Estoque mínimo, ponto de pedido e máximo: qual a diferença?
| Termo | O que é | Fórmula básica |
|---|---|---|
| Estoque de segurança (ES), muitas vezes chamado de mínimo | Reserva para variações de consumo e de prazo | Ver métodos abaixo |
| Ponto de pedido (PP) | Saldo que dispara a compra | PP = consumo médio × prazo de entrega + ES |
| Lote de compra (Q) | Quantidade comprada a cada pedido | Negociado ou pelo lote econômico |
| Estoque máximo | Saldo logo após a chegada do pedido | Máximo = ES + Q |
Um cuidado de vocabulário: em muitos sistemas, o campo “mínimo” é o gatilho de compra, ou seja, funciona como ponto de pedido. Não tem problema, desde que a planta saiba disso. O problema é metade da equipe calcular o mínimo como segurança e a outra metade como gatilho.
Como calcular o ponto de pedido pelo método simples?
Serve para itens de consumo regular e pouca variação. O estoque de segurança é definido como alguns dias ou semanas de consumo.
Exemplo: a correia em V de um transportador de farelo é consumida, em média, 2 unidades por semana. O fornecedor entrega em 3 semanas. Decidiu-se manter 2 semanas de consumo como segurança.
- ES = 2 un/semana × 2 semanas = 4 unidades
- PP = 2 un/semana × 3 semanas + 4 = 10 unidades
- Lote de compra negociado: 12 unidades
- Máximo = 4 + 12 = 16 unidades
Conferindo: o pedido sai quando o saldo chega a 10. Durante as 3 semanas de espera saem 6 correias, e o pedido chega com 4 no estoque. Somando o lote, o saldo volta a 16. A conta fecha.
O ponto fraco do método é a escolha das “2 semanas”. Ela não considera quanto o consumo varia. Para itens de maior valor ou mais críticos, vale o método estatístico.
Como calcular o estoque de segurança com nível de serviço?
A fórmula mais usada, quando o prazo de entrega é estável:
ES = Z × σ × √LT
Onde Z é o fator do nível de serviço desejado (1,65 para cerca de 95% e 2,33 para cerca de 99%), σ é o desvio padrão do consumo por período e LT é o prazo de entrega na mesma unidade de período.
Exemplo: um rolamento autocompensador usado em várias bombas da planta teve o seguinte consumo mensal nos últimos 12 meses: 4, 8, 2, 6, 4, 6, 2, 8, 6, 4, 6, 4. A soma é 60, então a média é 5 por mês. O desvio padrão amostral (a função DESVPAD.A da planilha) é 2,0. O fornecedor nacional entrega em 1 mês.
- Para 95%: ES = 1,65 × 2,0 × √1 = 3,3, arredondado para cima: 4 unidades. PP = 5 × 1 + 4 = 9 unidades.
- Para 99%: ES = 2,33 × 2,0 × √1 = 4,66, arredondado: 5 unidades. PP = 10 unidades.
Subir de 95% para 99% custou uma unidade a mais de estoque permanente nesse item. Em um rolamento, tudo bem. Em um item de R$ 40 mil, essa decisão precisa de conta.
E quando o prazo de entrega também varia?
Fornecedor que promete 30 dias e entrega entre 15 e 45 exige a versão completa:
ES = Z × √(LT × σ² + d² × σLT²)
Onde d é o consumo médio por período e σLT é o desvio padrão do prazo de entrega. No mesmo rolamento, com σLT de 0,5 mês:
ES = 1,65 × √(1 × 2,0² + 5² × 0,5²) = 1,65 × √(4 + 6,25) = 1,65 × √10,25 = 1,65 × 3,20 = 5,28, arredondado para 6 unidades. O PP sobe para 5 + 6 = 11.
Repare que a incerteza do fornecedor pesou mais que a do consumo (6,25 contra 4 dentro da raiz). Às vezes, negociar prazo firme com o fornecedor reduz mais estoque que qualquer ajuste de fórmula.
Quanto comprar de cada vez: o lote econômico
O lote econômico de compra equilibra o custo de emitir pedidos com o custo de manter estoque:
LEC = √(2 × D × S ÷ H)
D é o consumo anual, S o custo de cada pedido (tempo de compras, recebimento, frete fixo) e H o custo anual de manter uma unidade (custo do item × taxa de manutenção do estoque). Para o rolamento: D = 60 por ano, S = R$ 180, preço de R$ 950 e taxa de 25% ao ano, então H = R$ 237,50.
LEC = √(2 × 60 × 180 ÷ 237,50) = √(21.600 ÷ 237,50) = √90,95 = 9,5, ou seja, cerca de 10 unidades. Com ES de 4, o máximo fica em 4 + 10 = 14 unidades.
Os valores de S e da taxa são do exemplo. Peça à controladoria a taxa que a empresa usa para custo de capital e some armazenagem, seguro e perdas.
Quer tirar isso da planilha?O Sismetro junta ordens de serviço, preventivas, estoque e indicadores num só lugar, com app para os técnicos e integração com o ERP Senior.
E as peças que quase não giram?
Média e desvio padrão não servem para um item consumido uma vez a cada dois anos. Para esses, a decisão começa pela criticidade do ativo e pelo prazo de reposição, assunto do artigo sobre peças críticas. Quando quiser um número, a distribuição de Poisson ajuda.
Exemplo: um motor reserva atende dois motores iguais, com taxa histórica de 0,5 falha por ano somando os dois. O rebobinamento ou a compra de um novo levam 3 meses (0,25 ano). O número esperado de falhas durante a reposição é λ = 0,5 × 0,25 = 0,125.
- Probabilidade de nenhuma falha no período: e elevado a −0,125, ou seja, cerca de 0,8825 (na planilha, =EXP(-0,125))
- Probabilidade de no máximo uma falha: 0,8825 × (1 + 0,125) ≈ 0,993
Com um motor no estoque, a chance de faltar motor durante uma reposição é de cerca de 0,7%. Um segundo motor reserva raramente se paga nesse caso. A conta supõe falhas aleatórias e independentes; se os dois motores sofrem do mesmo problema de instalação, resolva o problema antes.
Passo a passo para revisar o mínimo e o máximo do almoxarifado
- Separe os itens em grupos. A curva ABC de sobressalentes e a criticidade definem quem recebe método estatístico e quem fica no método simples.
- Puxe 12 a 24 meses de consumo por item, sempre das saídas vinculadas a OS. Consumo lançado como “uso geral” distorce tudo.
- Some o consumo previsto da preventiva. Se o plano novo inclui trocar um filtro a cada 2 meses em 8 equipamentos, o histórico ainda não mostra isso.
- Atualize os prazos de entrega reais, medidos pela data do pedido e do recebimento, não pelo prazo do catálogo.
- Calcule ES, PP e máximo e registre no sistema.
- Acompanhe faltas e compras urgentes por item. Item que faltou é o primeiro da próxima revisão.
Num CMMS como o Sismetro, o estoque de peças trabalha com mínimo e máximo por item e o consumo fica vinculado à OS, então o histórico usado no passo 2 já sai separado por equipamento e por tipo de manutenção. O artigo de gestão do almoxarifado de manutenção trata do restante: cadastro, reparáveis e inventário.
Erros que fazem a fórmula dar resultado errado
- Usar o consumo de um ano atípico (uma reforma grande, uma safra curta) como se fosse normal.
- Ignorar o consumo que não passou pelo almoxarifado, como peças do estoque paralelo da oficina ou compras diretas de terceiros.
- Calcular por mês e informar o prazo em dias na mesma fórmula. Unidade errada gera estoque de segurança absurdo.
- Não arredondar para a embalagem de compra. Se o fornecedor vende caixa com 10, PP de 9 e lote de 7 não existem na vida real.
Próximo passo: escolha 20 itens que geraram compras urgentes nos últimos seis meses e aplique o passo a passo só neles. É um volume que cabe numa semana e mostra rápido se a fórmula está ajudando.
Perguntas frequentes
Estoque mínimo e ponto de pedido são a mesma coisa?
Depende de quem usa o termo. Tecnicamente, estoque mínimo costuma ser o estoque de segurança, e o ponto de pedido é o mínimo mais o consumo esperado durante o prazo de entrega. Em muitos sistemas, porém, o campo mínimo funciona como gatilho de compra, ou seja, como ponto de pedido. Defina o significado na sua planta e use sempre o mesmo.
Qual nível de serviço usar para peças de manutenção?
Use níveis diferentes por grupo. Itens de ativos críticos e com custo de falta alto justificam nível de serviço mais alto; itens baratos de compra rápida podem ter nível menor. Cada ponto a mais de nível de serviço aumenta o estoque de segurança, então a escolha é econômica, não só técnica.
Como calcular o estoque mínimo de uma peça que quase não tem consumo?
As fórmulas de média e desvio padrão não funcionam bem com consumo esporádico. Para esses itens, use a criticidade do ativo e o prazo de reposição, e quando quiser um número, a distribuição de Poisson ajuda a estimar a chance de faltar com uma, duas ou mais unidades em estoque.
De quanto em quanto tempo revisar mínimo e máximo?
Revise ao menos uma vez por ano para todo o cadastro e sempre que mudar algo relevante: prazo de entrega do fornecedor, plano preventivo, número de equipamentos que usam a peça ou criticidade do ativo. Itens que geraram falta ou compra urgente devem ser revistos na hora.