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Rastreabilidade metrológica: como funciona a cadeia

Rastreabilidade metrológica é a propriedade de um resultado de medição de poder ser relacionado a uma referência, normalmente uma unidade do Sistema Internacional (SI), por meio de uma cadeia documentada e ininterrupta de calibrações, cada uma contribuindo para a incerteza de medição. A definição está no item 2.41 do VIM 2012.

Resumo rápido

  • A rastreabilidade é do resultado, não do instrumento nem do laboratório. Um instrumento “rastreável” é um atalho de linguagem.
  • A cadeia típica é SI, instituto nacional de metrologia (no Brasil, o Inmetro), laboratório acreditado, padrão da empresa e instrumento de processo.
  • Cada elo acrescenta incerteza. Por isso o padrão de cima precisa ser bem melhor que o instrumento de baixo.
  • Para laboratórios acreditados, as rotas aceitas estão na NIT-Dicla-030, baseada na política ILAC P10.
  • Rastreabilidade não garante que a incerteza é adequada ao uso. Isso é outra pergunta, que o critério de aceitação responde.

O que diz a definição do VIM?

O VIM separa três termos que costumam ser misturados:

Termo Item do VIM Em resumo
Rastreabilidade metrológica 2.41 Propriedade do resultado de se relacionar a uma referência por cadeia ininterrupta e documentada de calibrações
Cadeia de rastreabilidade metrológica 2.42 A sequência de padrões e calibrações usada para ligar o resultado à referência
Rastreabilidade metrológica a uma unidade de medida 2.43 Quando a referência é a definição de uma unidade, como o quilograma ou o pascal

As notas do item 2.41 trazem três avisos práticos. A rastreabilidade exige uma hierarquia de calibração estabelecida. Ela não garante, sozinha, que a incerteza seja adequada nem que não houve erro humano. E o VIM lista, citando a ILAC, os elementos para confirmá-la: cadeia ininterrupta, incerteza documentada em cada elo, procedimento documentado, competência técnica, referência ao SI e intervalos de calibração.

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Como funciona a cadeia de rastreabilidade?

Cada nível é calibrado pelo nível acima, com um padrão de incerteza menor. No topo está a realização da unidade, mantida pelos institutos nacionais de metrologia. No Brasil, o Inmetro é signatário do acordo de reconhecimento mútuo do CIPM, o que permite comparar os padrões nacionais com os de outros países; os serviços reconhecidos estão no KCDB do BIPM.

  1. SI e padrões primários. Mantidos pelo Inmetro e por laboratórios designados para algumas grandezas, como o Observatório Nacional para a hora legal.
  2. Laboratórios acreditados. Calibram seus padrões de referência no Inmetro ou em outro laboratório acreditado com incerteza menor.
  3. Padrões da empresa. Calibrados num laboratório acreditado e usados para calibrar ou verificar instrumentos internos.
  4. Instrumentos de processo. Calibrados com os padrões da empresa ou diretamente num laboratório.
  5. Resultado de medição. A leitura usada para aprovar um lote, ajustar uma máquina ou liberar um produto.

Exemplo: a incerteza crescendo ao longo da cadeia

Situação de exemplo, com números ilustrativos, para pressão no ponto de 10 bar. O manômetro de processo é da classe 1,0 numa faixa de 0 a 10 bar, então o erro máximo admissível é ±0,1 bar.

Elo Padrão ou instrumento U em 10 bar Relação com o elo de baixo
1 Padrão do instituto nacional (balança de pressão) 0,0005 bar (0,005 %) 3 vezes melhor que o elo 2
2 Balança de pressão do laboratório acreditado 0,0015 bar (0,015 %) Cerca de 3 vezes melhor que o elo 3
3 Manômetro digital padrão da empresa 0,005 bar (0,05 %) 20 vezes menor que o EMA do instrumento
4 Calibração do manômetro de processo 0,02 bar EMA de 0,1 bar, 5 vezes maior que U

Duas leituras desse quadro. Primeiro, a incerteza cresce para baixo porque cada calibração acrescenta suas fontes: resolução, repetitividade, ambiente. No elo 4, quem pesa não é mais o padrão, e sim a resolução e a repetitividade do próprio manômetro de processo. Segundo, a folga entre elos é o que mantém a cadeia útil. Se o padrão da empresa tivesse U de 0,05 bar, a calibração do manômetro de processo chegaria perto do EMA, e quase nenhum instrumento poderia ser aprovado com segurança. A relação entre U e EMA é tratada em critério de aceitação.

Quais rotas de rastreabilidade a Cgcre aceita?

Para laboratórios acreditados, a regra está na NIT-Dicla-030 (revisão 15, de novembro de 2024), alinhada à ILAC P10:07/2020. Para calibração externa dos padrões, ela aceita, em resumo:

  • Institutos nacionais de metrologia e laboratórios designados signatários do acordo do CIPM, para serviços cobertos pelo acordo.
  • Os mesmos institutos para serviços ainda não cobertos, com confirmação prévia da rastreabilidade.
  • Laboratório acreditado pela Cgcre para aquela calibração, com certificado que traga o símbolo de acreditação.
  • Laboratório acreditado por organismo signatário dos acordos da ILAC, IAAC ou EA.

Para a indústria que não é laboratório acreditado, a exigência vem da ISO 9001 (item 7.1.5.2): padrões rastreáveis a padrões internacionais ou nacionais. Na prática, seguir as mesmas rotas da NIT-Dicla-030 é a forma mais simples de não ter discussão em auditoria. Como verificar a acreditação de um fornecedor está em consulta RBC.

Como provar a rastreabilidade numa auditoria?

Com documentos, elo por elo. Para um instrumento calibrado internamente, o auditor costuma pedir:

  1. O certificado do instrumento, com o padrão usado identificado.
  2. O certificado do padrão, válido na data da calibração do instrumento, emitido por laboratório acreditado para aquele serviço.
  3. A incerteza do padrão incorporada ao cálculo da incerteza do instrumento.
  4. O procedimento de calibração e a evidência de competência de quem calibrou.
  5. O intervalo de calibração do padrão e o registro de que foi cumprido.

Se qualquer item faltar, a cadeia está quebrada naquele ponto. O mais comum é o item 2: o padrão estava vencido no dia em que foi usado. Os cuidados com os padrões estão em gestão de padrões de calibração.

Erros comuns sobre rastreabilidade

  • “Calibrado pelo Inmetro.” Quase nunca é verdade para instrumentos industriais. O Inmetro calibra padrões de laboratórios. O correto é “rastreável ao SI por meio de laboratório acreditado”.
  • Achar que rastreável é o mesmo que acreditado. Um certificado pode ser rastreável sem ser acreditado; a diferença está em calibração RBC ou rastreável.
  • Ignorar a incerteza do padrão. Sem a incerteza herdada no cálculo, o elo existe no papel, mas não na conta.
  • Cadeia circular. Dois padrões internos calibrados um contra o outro, sem referência externa.
  • Certificado do padrão sem o serviço no escopo. O laboratório é acreditado, mas não para aquela grandeza ou faixa.

Como o Sismetro ajuda

Na emissão de um certificado no Sismetro, o técnico escolhe o padrão e o canal do padrão. O sistema registra qual padrão foi usado, com o certificado e a validade dele, e leva a incerteza do padrão para o cálculo como incerteza herdada, pelo valor mais próximo, pelo valor do VVC ou por interpolação linear. A página de validação de autenticidade mostra as versões e as aprovações de cada certificado, e as listagens indicam por cores os padrões perto de vencer. Assim, a cadeia que o auditor pede fica montada no próprio registro. O módulo de calibração e metrologia tem plano grátis para começar.

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Teste a sua cadeia em 20 minutos

Escolha um instrumento crítico calibrado internamente e tente montar os cinco documentos da lista acima, sem ajuda de ninguém. Cronometre. Se levar mais de 20 minutos ou faltar algum elo, a rastreabilidade existe só na intenção. O verbete rastreabilidade metrológica resume o conceito, e o contexto geral está em calibração de instrumentos.

Os laboratórios que formam o elo acreditado dessa cadeia no Brasil estão descritos no guia da RBC.

Perguntas frequentes

O que é rastreabilidade metrológica?

É a propriedade de um resultado de medição de se relacionar a uma referência, normalmente o SI, por uma cadeia documentada e ininterrupta de calibrações, cada uma contribuindo para a incerteza. A definição está no item 2.41 do VIM 2012.

Qual a diferença entre rastreabilidade e cadeia de rastreabilidade?

Rastreabilidade é a propriedade do resultado (VIM 2.41). Cadeia de rastreabilidade é a sequência de padrões e calibrações que permite essa ligação (VIM 2.42).

Rastreabilidade ao Inmetro é obrigatória?

A ISO 9001 pede padrões rastreáveis a padrões internacionais ou nacionais. Na prática, isso se faz com calibração em laboratório acreditado pela Cgcre ou por organismo signatário dos acordos internacionais, que por sua vez é rastreável ao Inmetro ou a outro instituto nacional.

Como comprovar a rastreabilidade de um instrumento?

Com o certificado do instrumento identificando o padrão usado, o certificado desse padrão válido na data e emitido por laboratório acreditado, a incerteza do padrão no cálculo, o procedimento e a evidência de competência de quem calibrou.

Certificado rastreável é o mesmo que certificado RBC?

Não. Todo certificado RBC é rastreável, mas um certificado rastreável pode vir de laboratório não acreditado. A acreditação comprova a competência do laboratório para aquele serviço, avaliada pela Cgcre.

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