Disponibilidade física é a fração das horas do calendário em que o equipamento esteve liberado pela manutenção, descontadas todas as horas de corretiva e preventiva. Disponibilidade operacional, no uso mais comum nas indústrias brasileiras, mede o mesmo efeito tendo como base só as horas programadas de produção. As duas estão certas; respondem a perguntas diferentes, e o problema começa quando alguém compara uma com a outra.
Se você já viu duas unidades da mesma empresa reportando “disponibilidade” com diferença de cinco pontos e o mesmo equipamento, quase sempre a explicação está aqui: base de horas diferente ou paradas diferentes descontadas. O conceito geral de disponibilidade e a fórmula MTBF ÷ (MTBF + MTTR) estão no artigo de indicadores de manutenção. Aqui o assunto são as variações, e quando usar cada uma.
Duas perguntas que definem qualquer disponibilidade
Antes de escolher o nome, responda:
- Que paradas eu desconto? Só o tempo de reparo da falha? Também a espera por peça e o deslocamento? Também a preventiva?
- Sobre qual base de horas? Horas do calendário (24 × dias) ou horas programadas de produção?
Toda “disponibilidade” que circula numa empresa é uma combinação dessas duas respostas. A tabela resume as mais usadas:
| Indicador | O que desconta | Base de horas | Pergunta que responde |
|---|---|---|---|
| Disponibilidade inerente (técnica) | Só o tempo de reparo de falhas | Tempo requerido de operação | Quão bom é o equipamento e o reparo em si? |
| Disponibilidade física (DF) | Toda manutenção: corretiva com esperas e preventiva | Calendário | Quantas horas o ativo ficou liberado pela manutenção? |
| Disponibilidade operacional (DO) | Paradas de manutenção dentro do horário programado | Horas programadas | Quanto a produção sentiu da manutenção? |
| Utilização física (UF) | Horas paradas por motivos operacionais | Horas disponíveis (calendário − manutenção) | Quanto do tempo liberado foi usado? |
Uma observação sobre nomes: na literatura internacional de confiabilidade, “disponibilidade operacional” costuma significar a versão que inclui atrasos logísticos e administrativos (espera de peça, de técnico, de liberação). Em muitas plantas brasileiras, o mesmo nome é usado para a base de horas programadas. Nenhum dos dois usos está errado, mas a ficha do indicador precisa dizer qual é o seu.
Como calcular a disponibilidade física?
DF = (horas do calendário − horas em manutenção) ÷ horas do calendário
É o indicador clássico de frotas (colhedoras, tratores, caminhões, carregadeiras) e de equipamentos que operam continuamente. Na agroindústria, é o número que o gerente agrícola de uma usina olha toda manhã durante a safra.
Exemplo: uma colhedora de cana num mês de safra de 30 dias, ou 720 horas de calendário. No mês, as OS mostram:
- 9 falhas, com 40 horas de reparo efetivo;
- 18 horas de espera por peça e deslocamento do comboio de oficina até o talhão;
- 22 horas de preventiva e lubrificação.
Horas em manutenção = 40 + 18 + 22 = 80 horas.
DF = (720 − 80) ÷ 720 = 640 ÷ 720 = 88,9%.
Com os mesmos dados, dá para ver o peso de cada parcela:
- Só o reparo efetivo: (720 − 40) ÷ 720 = 94,4%. É a disponibilidade inerente. Pela fórmula clássica dá o mesmo: MTTR = 40 ÷ 9 = 4,44 h; MTBF = 680 ÷ 9 = 75,6 h; 75,6 ÷ (75,6 + 4,44) = 94,4%.
- Reparo mais espera: (720 − 58) ÷ 720 = 91,9%.
- Tudo, incluindo preventiva: 88,9%.
Repare no que esses três números contam. A diferença entre 94,4% e 91,9% (18 horas) é logística: peça e deslocamento. A diferença entre 91,9% e 88,9% (22 horas) é preventiva. Se a meta de DF não estiver sendo atingida, a decomposição mostra se o caminho é melhorar o reparo, o apoio logístico ou a forma de fazer a preventiva (por exemplo, encaixando-a na troca de turno ou em parada por chuva).
Utilização física: a outra metade da história
A colhedora estava liberada 640 horas. Mas o apontamento mostra que ela cortou cana por 470 horas. As outras 170 foram chuva, falta de transbordo, troca de turno, refeição, mudança de talhão.
UF = horas trabalhadas ÷ horas disponíveis = 470 ÷ 640 = 73,4%
O produto dos dois indicadores dá o aproveitamento sobre o calendário: 0,889 × 0,734 = 0,653, ou seja, 65,3%, que é o mesmo que 470 ÷ 720. Essa separação resolve uma briga antiga: a manutenção entrega 88,9% de disponibilidade e a operação usa 73,4% dela. Cada área cuida do seu número. Sem essa divisão, todo mês com pouca colheita vira acusação contra a oficina.
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Disponibilidade operacional em plantas que trabalham em turnos
Agora uma fábrica que opera em dois turnos de 8 horas, 26 dias no mês: 416 horas programadas. O mês tem 720 horas de calendário. No período:
- 40 horas de corretiva aconteceram durante o horário de produção;
- 12 horas de preventiva foram feitas no domingo, fora do horário programado.
Disponibilidade física (calendário): (720 − 40 − 12) ÷ 720 = 668 ÷ 720 = 92,8%.
Disponibilidade operacional (horas programadas, descontando só o que parou a produção): (416 − 40) ÷ 416 = 376 ÷ 416 = 90,4%.
A física parece melhor porque as 304 horas sem programação “diluem” as paradas. Para essa planta, a operacional é a que conversa com a produção: das horas em que havia gente e matéria-prima para produzir, 9,6% foram perdidas para a manutenção. E ela premia uma prática correta, que é tirar a preventiva do horário produtivo.
Na usina durante a safra, ou numa câmara fria de frigorífico, que rodam 24 horas, as duas bases praticamente coincidem e a DF sobre o calendário funciona bem. Na entressafra, a conversa muda: o que interessa é cumprir o plano de reforma no prazo, não disponibilidade. Os indicadores próprios de usina estão em indicadores de manutenção para usinas.
Qual usar, afinal?
- Frotas e equipamentos móveis: disponibilidade física e utilização física, juntas. É o padrão de mercado e permite comparar com outras operações que usam o mesmo critério.
- Processo contínuo (24 horas): disponibilidade física sobre o calendário. Acompanhe também a inerente para separar desempenho técnico de logística.
- Plantas em turnos: disponibilidade operacional sobre horas programadas para conversar com a produção; física sobre o calendário só se a empresa precisar comparar com plantas contínuas do grupo.
- Avaliação técnica da equipe: disponibilidade inerente, com o MTTR decomposto ao lado.
E um aviso: nenhuma delas é o OEE. O OEE desconta também setup, falta de material, perda de velocidade e refugo. Uma linha pode ter 95% de disponibilidade operacional e OEE de 70%, como mostra o artigo sobre como calcular OEE.
Ficha do indicador: o que escrever
Para não repetir a confusão, cada disponibilidade usada na empresa deveria ter uma ficha curta, com:
- nome e sigla (DF, DO, Di);
- fórmula, com a base de horas explícita;
- lista do que é descontado (reparo, espera, preventiva, inspeção, parada programada anual);
- o que não é descontado (chuva, falta de matéria-prima, falta de demanda);
- fonte dos dados (OS de manutenção, apontamento de produção, horímetro);
- frequência de cálculo e quem valida.
Em empresas com várias unidades, a ficha é o que permite comparar plantas. Num CMMS como o Sismetro, com arquitetura multiempresa e multifilial, o cálculo segue a mesma regra em todas as unidades, desde que as OS registrem corretamente o tipo de parada e os horários. A regra do sistema não corrige OS mal preenchida, então a disciplina de apontamento continua sendo da equipe.
Para começar: liste todas as “disponibilidades” que hoje aparecem em relatórios da sua planta, escreva para cada uma as respostas às duas perguntas (o que desconta e sobre qual base) e elimine as duplicadas. Na maioria das empresas sobram duas, física e operacional ou física e inerente, e a discussão mensal fica bem mais curta.
Perguntas frequentes
Qual a fórmula da disponibilidade física?
DF = (horas do calendário − horas em manutenção) ÷ horas do calendário. Entram como horas em manutenção as corretivas, incluindo espera por peça e deslocamento, e as preventivas. É o indicador clássico de frotas e de ativos que operam 24 horas.
Qual a diferença entre disponibilidade física e utilização física?
A disponibilidade física mede quanto tempo o equipamento esteve liberado pela manutenção. A utilização física mede quanto desse tempo liberado a operação realmente usou. Uma colhedora pode ter boa disponibilidade e baixa utilização por chuva, falta de transbordo ou mudança de talhão.
Disponibilidade operacional é sempre menor que a física?
Não necessariamente, porque as bases são diferentes. Em plantas que não operam 24 horas, a disponibilidade física sobre o calendário tende a parecer melhor, porque as horas sem programação diluem as paradas. Por isso não se compara uma com a outra; compara-se cada uma com seu próprio histórico.
Qual disponibilidade usar para avaliar a equipe de manutenção?
A disponibilidade inerente, que considera só o tempo de reparo das falhas, mostra o desempenho técnico. Mas a equipe também responde por espera de peça e por preventivas mal programadas, que aparecem na disponibilidade física e na operacional. O mais justo é acompanhar as duas.