Esterilização a vapor é o processo que usa vapor saturado sob pressão para matar microrganismos, inclusive esporos, nos produtos para saúde. O resultado depende de quatro parâmetros (vapor, pressão, temperatura e tempo) e de uma condição prévia: o ar precisa sair da câmara e de dentro dos pacotes. É o método preferido para instrumental crítico que tolera calor e umidade, e o mais usado nas CME brasileiras.
Para quem vem da indústria, a autoclave de CME é um vaso de pressão com controlador de processo, bomba de vácuo, gerador de vapor ou alimentação da rede, válvulas e sensores. Para quem vem da enfermagem, é o equipamento que libera ou segura a caixa do próximo paciente. As duas visões precisam conversar.
Quais são os parâmetros da esterilização a vapor?
O guia de desinfecção e esterilização do CDC resume: são quatro parâmetros, vapor, pressão, temperatura e tempo. O vapor ideal é o vapor saturado seco com água arrastada (fração de secura de 97% ou mais). A pressão serve para obter as temperaturas altas necessárias para matar rapidamente os microrganismos. E a temperatura precisa ser mantida por um tempo mínimo.
Os valores de referência variam conforme a fonte e o tipo de equipamento:
| Referência | Tipo de autoclave e carga | Temperatura | Tempo de exposição | Secagem |
|---|---|---|---|---|
| CDC, Tabela 7 | Gravitacional, instrumental embalado | 121 °C | 30 min | 15 a 30 min |
| CDC, Tabela 7 | Gravitacional, instrumental embalado | 132 °C | 15 min | 15 a 30 min |
| CDC, Tabela 7 | Gravitacional, pacotes de tecido | 132 °C | 25 min | 15 min |
| CDC, Tabela 7 | Remoção dinâmica do ar (pré-vácuo), instrumental embalado | 132 °C | 4 min | 20 a 30 min |
| CDC, Tabela 7 | Pré-vácuo, pacotes de tecido | 132 °C | 4 min | 5 a 20 min |
| HTM 01-01 Parte C (NHS) | Faixa de alta temperatura | 134 °C (máxima de 137 °C) | 3 min, mínimo | Não especificada na tabela |
| HTM 01-01 Parte C (NHS) | Faixa de 121 °C | 121 °C (máxima de 124 °C) | 15 min, mínimo | Não especificada na tabela |
Fontes: CDC, Tabela 7, tempos mínimos de ciclos de esterilização a vapor (guia de 2008, adaptado da AAMI) e HTM 01-01 Parte C, Tabela 1. A norma de requisitos para desenvolvimento, validação e controle de rotina do processo é a ISO 17665:2024; a versão brasileira adotada pela ABNT é a ABNT NBR ISO 17665-1.
A tabela serve para entender a ordem de grandeza, não para programar a autoclave. O que vale na CME é o ciclo definido pelo fabricante e confirmado na qualificação de desempenho com a carga real, e a RDC 15/2012 proíbe mexer nele:
“Art. 94 Não é permitido à alteração dos parâmetros estabelecidos na qualificação de operação e de desempenho de qualquer ciclo dos equipamentos de esterilização.”
Que tipos de autoclave existem?
O manual da OMS e da OPAS, Decontamination and Reprocessing of Medical Devices for Health-care Facilities (2016), separa os equipamentos pela forma de remover o ar:
- Pré-vácuo: bomba de vácuo ou ejetor remove o ar da câmara e dos pacotes antes da exposição; operam de 132 °C a 135 °C.
- Pulso de vapor e pressão (steam-flush pressure-pulse): sequência repetida de injeção de vapor e pulso de pressão; operam a 121-123 °C, 132-135 °C ou 141-144 °C.
- Gravitacional: o vapor desloca o ar por gravidade; operam a 121 °C ou mais, com tempos maiores, principalmente para cargas porosas.
A RDC 15/2012 restringe duas opções:
“Art. 91 É proibido o uso de autoclave gravitacional de capacidade superior a 100 litros.”
“Art. 92 Não é permitido o uso de estufas para a esterilização de produtos para saúde.”
Como é um ciclo, fase por fase
- Condicionamento: remoção do ar por vácuo ou pulsos, com aquecimento da carga. É a fase que o teste de Bowie-Dick avalia todos os dias nas autoclaves com bomba de vácuo.
- Exposição (platô): câmara e carga mantidas na temperatura de esterilização pelo tempo do ciclo.
- Exaustão: saída do vapor e queda de pressão.
- Secagem: vácuo e calor para retirar o condensado. É a fase mais encurtada na pressa e a que mais gera pacote molhado.
Como carregar e descarregar a autoclave
O manual da OMS lista regras de carga que valem como checklist:
- sem sobrecarga;
- bandejas e contêineres não perfurados de lado;
- pacotes afastados das paredes da câmara;
- peças côncavas inclinadas, para o condensado não empoçar;
- pacotes de tecido perpendiculares à prateleira do carro;
- envelopes de lado, com vários envelopes encostados papel com plástico;
- contêineres rígidos empilhados só se o fabricante validou essa configuração;
- registro do operador que carregou e iniciou o ciclo.
Na descarga, o operador confere o registro impresso (parâmetros, hora e data), verifica se o número do ciclo bate com a etiqueta de lote da carga, rubrica a conferência e examina os pacotes em busca de umidade e de embalagem comprometida. Depois, a carga esfria em local sem trânsito e sem correntes de ar fortes. Pacote quente colocado em bancada fria condensa por dentro.
Quer a rastreabilidade da sua CME sem papel?O Sismetro registra limpeza, preparo, ciclo, indicadores e uso no paciente de cada instrumental, kit e caixa, com etiqueta, DataMatrix e os registros que a RDC 15 pede.
Pacote molhado: por que acontece e o que fazer
O manual da OMS é taxativo: quando aparecem pacotes molhados, a esterilidade é considerada comprometida e o conteúdo, contaminado. As causas mais comuns na prática:
- carga muito densa ou contêiner com peso acima do validado;
- bandejas metálicas pesadas em cima de pacotes de tecido;
- fase de secagem encurtada ou com vácuo fraco;
- vapor com excesso de água (qualidade do vapor fora de especificação);
- resfriamento em local com corrente de ar ou sobre superfície fria.
Pacote molhado repetido não se resolve aumentando o tempo de secagem por conta própria: o artigo 94 proíbe alterar parâmetros qualificados. O caminho é abrir uma ordem de serviço para a engenharia investigar a causa e, se houver ajuste, requalificar.
Que monitoramento a RDC 15 exige em cada ciclo?
“Art. 96 O monitoramento do processo de esterilização deve ser realizado em cada carga em pacote teste desafio com integradores químicos (classes 5 ou 6), segundo rotina definida pelo próprio CME ou pela empresa processadora.”
“Art. 97 O monitoramento do processo de esterilização com indicadores físicos deve ser registrado a cada ciclo de esterilização.”
Somam-se o Bowie-Dick no primeiro ciclo do dia nas autoclaves com bomba de vácuo (art. 93), o indicador biológico diário em pacote desafio no ponto de maior desafio da câmara (art. 99) e o biológico em toda carga com implantável, que só é liberada após leitura negativa (art. 98). As classes de indicador químico estão em indicadores químicos e a ISO 11140.
A água do gerador de vapor também é parâmetro: “A água utilizada no processo de geração do vapor das autoclaves deve atender às especificações do fabricante da autoclave” (art. 95). Água fora de especificação é causa de incrustação, falha de válvula e vapor de má qualidade.
Ciclo para uso imediato
O antigo “flash” tem regra própria no artigo 94: só pode ocorrer em urgência e emergência (§ 1º), deve ser documentado com “data, hora, motivo do uso, nome do instrumental cirúrgico ou produto para saúde, nome e assinatura do profissional responsável pelo CME e identificação do paciente” (§ 2º), e “deve ser monitorado por integrador ou emulador químico” (§ 5º). O manual da OMS acrescenta que esse método deve ser evitado, porque o material sai sem embalagem e sem secagem, e não deve ser usado para implantes nem para caixas completas.
A autoclave como equipamento de manutenção
A RDC 15 trata a autoclave como um ativo com plano de manutenção formal: qualificação de instalação, operação e desempenho no mínimo anual (art. 37), qualificação térmica e calibração dos instrumentos de controle e medição por laboratório capacitado, também anual (art. 39), registro de cada intervenção técnica (art. 40) e requalificação após reparo ou suspeita de falha (art. 41). Por ser vaso de pressão, a autoclave também pode estar no escopo da NR-13, conforme o volume e a pressão do equipamento. Manter isso num sistema de gestão de manutenção, com preventiva, ordem de serviço e certificado de calibração ligados ao patrimônio, evita a planilha paralela da engenharia clínica. O passo a passo está em qualificação e validação de autoclave.
Como o Sismetro ajuda
No software para CME do Sismetro, cada ciclo é cadastrado com método, temperatura, tempo de exposição, pressão e tempo total, e ligado às autoclaves que podem rodá-lo. Ao abrir o lote, o operador escolhe o equipamento e o ciclo, inclui os kits (o sistema mostra o volume e o percentual de carga) e os testes entram no lote como kits do tipo químico, biológico ou Bowie & Dick. O relatório do lote traz operador, equipamento, início, ciclo, kits e o responsável técnico.
Próximo passo prático: pegue os registros impressos dos últimos dez ciclos de uma autoclave e confira se todos têm temperatura, pressão e tempo dentro do ciclo qualificado, se o número do ciclo bate com a etiqueta do lote e se alguém assinou a liberação. Um ciclo sem essas três coisas é um ciclo que não pode ser provado.
Perguntas frequentes
Qual a temperatura e o tempo da autoclave?
Depende do tipo de autoclave e do ciclo validado. Como referência, o CDC cita 4 minutos a 132 °C em autoclave com pré-vácuo e 30 minutos a 121 °C em autoclave gravitacional para material embalado, e o HTM 01-01 do NHS usa a faixa de 134 a 137 °C com 3 minutos de tempo mínimo de manutenção. O que vale na CME é o ciclo qualificado do equipamento.
Qual a pressão da autoclave?
A pressão é consequência da temperatura do vapor saturado: o vapor só chega a 121 °C ou 134 °C se estiver sob pressão. Por isso o registro do ciclo deve trazer temperatura e pressão, e a coerência entre as duas é um dos sinais de que não há ar residual na câmara.
Autoclave gravitacional é proibida?
A RDC 15/2012 proíbe autoclave gravitacional com capacidade superior a 100 litros (art. 91). Autoclaves gravitacionais menores não são proibidas pela norma, mas exigem ciclos mais longos e cuidado com cargas porosas e com lúmen.
O que fazer com pacote molhado depois do ciclo?
Considerar o conteúdo contaminado e reprocessar, conforme o manual da OMS. Em seguida, investigar a causa: carga mal distribuída, contêiner com densidade alta, secagem insuficiente, qualidade do vapor ou descarga e resfriamento em local com corrente de ar.