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Manutenção de moenda: pontos críticos na safra e entressafra

A manutenção de moenda é o conjunto de inspeções, ajustes e recuperações feitas nos ternos (rolos, camisas, mancais, bagaceiras, pentes e castelos) e no acionamento (turbina ou motor, redutores e acoplamentos) para manter a extração e a moagem horária durante toda a safra. Uma parte cabe nas paradas curtas da safra; outra, como troca de camisa e revisão de redutor, só cabe na entressafra.

Quem cuida de moenda sabe que ela raramente quebra sem avisar. O mancal aquece aos poucos, a pega dos rolos vai caindo, o embuchamento passa a acontecer duas vezes por turno em vez de uma por semana. O problema é que esses avisos ficam na cabeça do operador da noite e não chegam ao planejamento. Este texto organiza o que olhar, quando e como transformar isso em decisão.

Como uma moenda falha na prática?

Cada terno trabalha com carga hidráulica alta sobre o rolo superior, caldo ácido, água de embebição quente e bagaço abrasivo, com terra e areia que chegam junto da cana. A combinação produz modos de falha bem conhecidos:

Componente Modo de falha comum Sinal que aparece antes
Camisas dos rolos Desgaste dos frisos, perda de rugosidade, trincas Queda de pega, escorregamento, embuchamento mais frequente
Eixos Trinca por fadiga nos munhões e nas mudanças de seção Quase nenhum na operação; só ensaio não destrutivo encontra
Mancais e bronzinas Desgaste, gripagem por falha de lubrificação ou contaminação com caldo Aumento gradual de temperatura, consumo anormal de lubrificante
Bagaceira e pentes Desgaste, quebra, regulagem fora do especificado Bagaço enrolando no rolo, sobrecarga, embuchamento
Sistema hidráulico do rolo superior Vazamento, perda de carga do acumulador Flutuação irregular, pressão oscilando
Redutores e acoplamentos Desgaste de engrenagens, falha de rolamento, óleo contaminado com água Ruído, vibração, temperatura do óleo, partículas na análise

Dois pontos merecem atenção especial. O primeiro é o eixo: trinca por fadiga não dá sinal claro na operação, e um eixo rompido no meio da safra para o terno por dias. O segundo é a contaminação do lubrificante das bronzinas com caldo e água de lavagem, que transforma uma falha barata (vedação) em uma cara (bronzina e munhão).

O que fazer na moenda durante a safra

Na safra, o objetivo é chegar à próxima parada programada sem corretiva. A rotina que funciona tem três camadas.

Inspeção por turno

  • Temperatura de cada mancal, medida e anotada (termômetro de contato ou câmera termográfica). Visto em checklist sem valor não serve para tendência.
  • Lubrificação das bronzinas: pressão e vazão do sistema centralizado, ou consumo, quando é manual.
  • Pressão hidráulica e flutuação do rolo superior em cada terno.
  • Ruído e temperatura de redutores; vazamentos de óleo e de caldo.
  • Estado visível de pentes, raspadores e bagaceira, e frequência de embuchamento.

Para isso dar certo, o roteiro precisa ser curto e fixo. Uma rota de inspeção sensitiva com 40 pontos por terno não é feita às três da manhã; uma com 12 pontos bem escolhidos é.

Serviços com a moenda girando

Em muitas usinas, o chapisco (deposição de solda na superfície dos rolos para manter a rugosidade) é aplicado com a moenda em operação, seguindo procedimento de segurança próprio. Ajustes de embebição e correções pontuais de lubrificação também entram aqui.

Paradas programadas da safra

Nas paradas curtas cabem troca de pentes e raspadores, inspeção e correção de bagaceira, reaperto de fixações, coleta de óleo dos redutores para análise de óleo, inspeção de acoplamentos e correção de vazamentos. A lista de cada parada deve sair do que as inspeções de turno apontaram, e não de uma lista genérica repetida a cada 15 dias. O texto sobre manutenção durante a safra detalha como planejar essas janelas.

O que medir no fim da safra para decidir a entressafra

A decisão de recuperar, trocar ou deixar um rolo como está depende de medições feitas com a moenda parada, logo no fim da moagem. As principais:

  1. Diâmetro e perfil dos frisos de cada rolo, em vários pontos ao longo do comprimento. Desgaste desigual entre as pontas e o centro indica problema de alimentação ou de regulagem.
  2. Ensaios não destrutivos nos eixos (ultrassom, partículas magnéticas ou líquido penetrante, conforme a região), principalmente nos munhões e nas mudanças de seção.
  3. Folgas e desgaste de bronzinas e munhões, com registro do valor encontrado.
  4. Estado dos castelos, procurando trincas em regiões de concentração de tensão.
  5. Redutores: histórico de análise de óleo e de vibração da safra para definir se abrem ou não.

Com os diâmetros medidos, a regulagem da moenda (aberturas de entrada e saída e posição da bagaceira) é recalculada para a próxima safra. Rolo recuperado com diâmetro diferente do previsto muda a regulagem, por isso a medição final, depois da recuperação, também precisa ser registrada.

A organização da parada em si (escopo, terceiros, caminho crítico) está no guia de manutenção na entressafra. Aqui o foco é o que a moenda pede.

Recuperar ou trocar a camisa: como decidir

A conta envolve três fatores: quanto material ainda resta na camisa, quanto custa a recuperação comparada à troca e qual o risco de a camisa recuperada não aguentar a safra inteira.

Um exemplo hipotético. Um rolo de pressão terminou a safra com 18 mm de desgaste no diâmetro. O limite definido pela engenharia da usina para recuperar é de 30 mm; acima disso, troca-se a camisa. A recuperação por solda custa cerca de 35% de uma camisa nova e devolve o perfil dos frisos. Nesse caso, recuperar faz sentido, desde que o histórico desse rolo não mostre trinca reincidente.

Agora outro rolo, do mesmo terno, com 26 mm de desgaste e duas trincas reparadas nas últimas duas safras. Recuperar de novo está dentro do limite, mas o risco é outro: se a camisa trincar em julho, a parada custa mais que a diferença de preço. O histórico por rolo é o que permite essa leitura, e ele só existe se cada intervenção virou registro.

Indicadores por terno: um exemplo com números

Medir a moenda como um bloco esconde o problema. Separe por terno e por acionamento. Exemplo fictício de uma moenda de seis ternos que operou 5.100 horas efetivas na safra:

Conjunto Paradas por manutenção Horas paradas MTBF (h) MTTR (h)
Terno 1 9 31 567 3,4
Terno 2 4 11 1.275 2,8
Ternos 3 a 6 (somados) 7 19 729 2,7
Acionamento terno 1 3 22 1.700 7,3

O MTBF foi calculado como horas de operação divididas pelo número de paradas (5.100 / 9 = 567 h no terno 1), e o MTTR como horas paradas divididas pelo número de paradas (31 / 9 = 3,4 h). Para os ternos 3 a 6 somados, o MTBF é por conjunto de quatro ternos, então não compare diretamente com os outros.

A leitura é rápida: o terno 1 e seu acionamento respondem por mais da metade das horas paradas. É ali que a análise de falha precisa acontecer, e é ali que a entressafra deve gastar mais. Sem esse corte, a discussão vira impressão (“a moenda está ruim este ano”).

Num CMMS como o Sismetro, cada parada da moenda vira uma ordem de serviço vinculada ao terno ou ao acionamento, aberta pelo celular no momento da falha. Com um QR Code em cada conjunto, o técnico abre a OS no equipamento certo e o histórico de medições, trocas e falhas fica no mesmo lugar para a decisão de entressafra.

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Erros comuns na manutenção de moenda

  • Tratar todo embuchamento como problema de operação. Embuchamento repetido no mesmo terno costuma ter causa mecânica: bagaceira gasta, pente quebrado, regulagem errada ou rolo sem pega.
  • Medir rolos e não guardar o dado. A medição vira um papel na gaveta do encarregado, e na safra seguinte ninguém sabe a taxa de desgaste de cada rolo.
  • Ignorar a lubrificação das bronzinas como sistema. Bomba, distribuidores e linhas de lubrificação centralizada também precisam de plano. Bronzina gripada quase sempre começa em linha entupida. Veja mais em lubrificação industrial.
  • Abrir redutor por calendário. Redutor com análise de óleo e vibração estáveis durante a safra pode não precisar ser aberto. Abrir sem necessidade também introduz falha de montagem. O artigo sobre manutenção de redutores trata desse equilíbrio.
  • Não registrar a regulagem aplicada. Se a moenda rendeu bem ou mal, sem o registro da regulagem não há como repetir o acerto ou corrigir o erro.

Checklist para levar ao próximo turno

  1. Revise a rota de inspeção da moenda: cada ponto tem valor de referência e limite de alarme?
  2. Confirme que temperaturas de mancal estão sendo registradas como número, não como visto.
  3. Separe as paradas da safra atual por terno e por acionamento e calcule MTBF e MTTR de cada conjunto.
  4. Agende as medições de fim de safra (rolos, eixos, folgas) e defina onde os valores serão guardados.
  5. Para cada rolo, registre desgaste, intervenções anteriores e decisão (recuperar, trocar ou manter).

Se você fizer só uma coisa nesta semana, faça o item 3. Ele mostra onde estão as horas perdidas e muda a conversa sobre o orçamento da entressafra.

Perguntas frequentes

Com que frequência inspecionar os mancais da moenda?

Temperatura e lubrificação das bronzinas devem ser verificadas em todo turno, de preferência com registro do valor e não só com um visto. A tendência importa mais que a leitura isolada: um mancal que sobe alguns graus por dia está avisando antes de travar.

Chapisco substitui a recuperação da camisa na entressafra?

Não. O chapisco mantém a rugosidade da superfície e ajuda a pega da cana durante a safra, mas não recompõe o perfil dos frisos nem o diâmetro perdido. A recuperação ou a troca da camisa continua dependendo das medições de fim de safra.

Quais indicadores usar para a manutenção da moenda?

Horas paradas por causa de manutenção, número de paradas, MTBF e MTTR por terno e por acionamento, além do custo por safra de cada terno. Separar por terno mostra se o problema é da moenda inteira ou de um conjunto específico.

Qual a diferença entre manutenção de moenda e de difusor?

A moenda concentra esforço mecânico em poucos conjuntos muito carregados (rolos, mancais, redutores), então a manutenção gira em torno de desgaste e fadiga. No difusor o esforço é distribuído, e a atenção vai para corrente, fundo perfurado, bombas de caldo e corrosão.

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