Os indicadores de manutenção para usinas sucroenergéticas medem quanto da moagem a indústria perdeu por causa de falha de equipamento, quão confiáveis são os sistemas críticos, se a manutenção cumpriu o que planejou e quanto isso custou por tonelada de cana. Como a usina vive dois regimes no ano, o conjunto se divide em indicadores de safra, de entressafra e de custo.
Toda usina tem número. O problema costuma ser outro: o tempo perdido é apontado com causa genérica, cada área tem uma fórmula de disponibilidade e o relatório de entressafra mostra só o orçamento gasto. Com isso, a reunião mensal vira discussão sobre de quem é a hora parada, e ninguém sai dela sabendo onde atacar.
Indicadores de safra: o que medir com a usina moendo
1. Tempo perdido por causa industrial
É o indicador que a diretoria olha primeiro. Mede as horas em que a moagem parou ou foi reduzida por causa da indústria, separadas das causas que não dependem dela.
Fórmula: tempo perdido industrial (%) = horas paradas por causa industrial ÷ horas do período × 100.
A separação das causas é o que dá valor ao número. Uma classificação mínima:
| Grupo de causa | Exemplos | Entra no indicador da manutenção? |
|---|---|---|
| Industrial: manutenção | Falha mecânica, elétrica, de instrumentação ou automação | Sim |
| Industrial: operação | Embuchamento por alimentação irregular, erro operacional | Separado, mas analisado junto |
| Agrícola | Falta de cana, problemas de colheita ou transporte | Não |
| Clima | Chuva que interrompe a colheita | Não |
| Externa | Falha na rede de energia da concessionária | Não |
| Programada | Paradas programadas da safra | Indicador próprio |
Exemplo: numa safra de 215 dias (5.160 horas), a usina registra 129 horas paradas por causa industrial de manutenção. O tempo perdido é 129 ÷ 5.160 = 2,5%. Desdobrando por sistema, 51 horas vieram de caldeiras, 38 da extração, 22 da cogeração e 18 do restante. A análise começa pela caldeira, mesmo que a moenda seja o equipamento que mais aparece nas conversas.
Para esse número ser confiável, cada parada precisa de início, fim, equipamento ou sistema, causa de uma lista fechada e a OS correspondente. O apontamento em si está descrito em manutenção durante a safra.
2. Disponibilidade dos sistemas críticos
O tempo perdido mostra o efeito na moagem. A disponibilidade mostra a saúde de cada sistema, inclusive dos que têm redundância e não param a usina quando falham. Uma caldeira com reserva pode ter disponibilidade ruim sem gerar tempo perdido, até o dia em que as duas falham juntas.
Fórmula: disponibilidade = (horas do período − horas em manutenção não programada) ÷ horas do período × 100. Se as paradas programadas entram ou não no cálculo depende da definição adotada; o importante é usar a mesma em toda a usina. A diferença entre as abordagens está em disponibilidade física x operacional.
3. MTBF e MTTR dos equipamentos críticos
Na safra, faz sentido acompanhar MTBF e MTTR para uma lista curta de equipamentos: picador, desfibrador, ternos da moenda ou difusor, bombas de caldo, caldeiras, turbinas e geradores.
Exemplo: o desfibrador operou 2.640 horas no período e teve 4 falhas, que somaram 10 horas de reparo. MTBF = 2.640 ÷ 4 = 660 horas. MTTR = 10 ÷ 4 = 2,5 horas. Se na safra anterior o MTBF era de 1.100 horas, algo mudou: material, montagem na entressafra ou condição de operação. Os cálculos com mais detalhes estão em como calcular o MTBF.
4. Aderência às paradas programadas
Fórmula: serviços executados na parada ÷ serviços planejados para a parada × 100.
Uma usina que planeja 42 serviços para uma parada e executa 33 tem aderência de 78,6%. Os 9 que ficaram precisam de motivo registrado (falta de material, de tempo, de gente, de liberação). Se o motivo mais comum é falta de material, o problema está no almoxarifado ou no planejamento, não na execução.
Indicadores de entressafra
A entressafra costuma ser medida só pelo orçamento. Só que uma entressafra que fechou dentro do orçado e entregou a usina com problemas custa mais caro do que uma que estourou 5% e partiu limpa.
- Avanço físico x planejado: percentual do escopo concluído em relação ao previsto para a data, acompanhado semanalmente por área. Mostra o atraso enquanto ainda dá para corrigir.
- Serviços incluídos após o congelamento: quantidade e horas de serviços que entraram depois da data de congelamento do escopo. Número alto indica planejamento fraco ou falta de disciplina.
- Realizado x orçado: por área e por natureza de gasto. Como montar e controlar esse número está em orçamento de entressafra.
- Escopo concluído na partida: percentual da lista congelada efetivamente terminado quando a usina parte.
- Falhas no início da safra em itens revisados: número de falhas, nas primeiras semanas de moagem, em equipamentos que passaram por intervenção na entressafra. É o indicador mais honesto sobre a qualidade da montagem.
O último merece atenção especial. Se o mancal de um terno de moenda que foi montado na entressafra aquece na segunda semana de safra, o problema não é de confiabilidade do equipamento, é de execução ou de inspeção de montagem. Os pontos de controle da montagem estão em manutenção de moenda.
Indicadores de custo
O indicador de custo mais usado nas usinas é o custo de manutenção industrial por tonelada de cana moída, porque é físico e comparável entre safras e entre unidades do mesmo grupo.
Fórmula: custo de manutenção da safra (incluindo entressafra) ÷ toneladas de cana moída.
Exemplo: uma usina gastou R$ 31,5 milhões em manutenção industrial no ciclo e moeu 4,2 milhões de toneladas. O custo é R$ 7,50 por tonelada. Se na safra seguinte a moagem cai para 3,6 milhões de toneladas por quebra agrícola, o mesmo gasto vira R$ 8,75 por tonelada, sem que a manutenção tenha piorado. Por isso o número deve vir acompanhado do gasto absoluto e da moagem.
Também vale acompanhar a proporção entre gasto de safra e gasto de entressafra, e quanto do gasto de safra foi corretiva não planejada.
Como montar o painel da usina
- Defina o caderno de indicadores: nome, fórmula, fonte do dado, responsável e frequência. Uma página por indicador basta.
- Feche a lista de causas de parada e treine quem aponta. Causa “outros” acima de 5% do tempo perdido significa que a lista não serve.
- Ligue cada parada a uma OS. Sem a OS, não há como saber o que foi feito, quanto custou e se a falha se repete.
- Separe painel de safra e painel de entressafra. Misturar os dois confunde a leitura.
- Leve para a reunião semanal só o que gera ação: as três maiores causas de tempo perdido, os equipamentos com MTBF caindo e o avanço da entressafra por área.
Num CMMS como o Sismetro, MTBF, MTTR, disponibilidade e confiabilidade são calculados a partir das próprias ordens de serviço, e o construtor de dashboards permite montar visões separadas para safra e entressafra. O que nenhum sistema resolve sozinho é o apontamento: se a parada não for registrada com equipamento e causa, o indicador sai errado. Mais ideias sobre o que mostrar estão em dashboard de manutenção.
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Erros que tornam os indicadores inúteis
- Causa genérica. “Mecânica” não diz nada. O registro precisa apontar o equipamento e o modo de falha.
- Tempo perdido sem redução de moagem. Moagem reduzida por falha (uma caldeira a menos, um terno com problema) também é perda e precisa ser convertida em horas equivalentes ou registrada à parte.
- Disputa de causa entre áreas. Se agrícola e industrial discutem cada hora, defina um árbitro e uma regra escrita antes da safra.
- Indicadores demais. Trinta indicadores no painel garantem que nenhum seja acompanhado.
Próximo passo
Pegue o apontamento de tempo perdido da última safra e conte quantas horas estão com causa genérica ou sem equipamento identificado. Se passar de 10%, o primeiro projeto de indicadores não é um painel novo, é corrigir o apontamento antes da próxima moagem. Depois disso, comece com cinco indicadores: tempo perdido industrial por sistema, disponibilidade dos sistemas críticos, aderência às paradas programadas, avanço da entressafra e custo por tonelada.
Perguntas frequentes
Qual o principal indicador de manutenção de uma usina?
O tempo perdido por causa industrial durante a safra, porque traduz a falha de equipamento em moagem perdida. Ele precisa vir separado por sistema e com causas de uma lista fechada. Sozinho, porém, não mostra a saúde dos sistemas com redundância, por isso deve ser acompanhado da disponibilidade.
Como calcular o custo de manutenção por tonelada de cana?
Some o custo de manutenção industrial do ciclo, incluindo safra e entressafra, e divida pelas toneladas de cana moídas. Exemplo: R$ 31,5 milhões divididos por 4,2 milhões de toneladas resultam em R$ 7,50 por tonelada. Apresente sempre junto com o gasto absoluto, porque a moagem varia com a safra agrícola.
Como medir a qualidade da entressafra?
Além do realizado contra o orçado, acompanhe o avanço físico, os serviços incluídos após o congelamento, o escopo concluído na partida e as falhas nas primeiras semanas de safra em equipamentos revisados. Este último mostra diretamente a qualidade da execução.
Parada por falta de cana entra no indicador da manutenção?
Não. Falta de cana, chuva e falha externa de energia devem ser registradas, mas em grupos de causa separados. Misturar tudo no mesmo número esconde a perda que a manutenção pode de fato reduzir.